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Corporalidade: o ser humano e a linguagem do corpo

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Géssica Hellmann
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O Corpo Teatral na peça “A Cobertura”: um estudo de caso

August 4th, 2009 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Corporalidade e Arte

- Alexis Kauffmann e Géssica Hellmann

Como coroamento de oito meses de aulas, ensaios, e superação individual, a turma de 2006 da oficina de teatro Zaira Zambelli apresentou nos últimos dias 13 e 14 a peça “A Cobertura” de Jorge Eduardo Magalhães. Desta comédia trágica que trata sobre a loucura da negação de duras realidades, abordaremos neste artigo o processo de construção das personagens por cada um dos alunos membros do elenco do ponto de vista de sua corporalidade. Trataremos também dos eventos e sensações corporais de cada um no dia da estréia antes, durante e depois de sua entrada no palco.

Ilustram este artigo fotos dos autores e algumas gentilmente cedidas por Ana Araújo.

Parte do Elenco da ?eça de teatro "A Cobertura" - foto cedida por Ana Araújo

Na data da estréia, o grupo se reuniu cedo para um ensaio completo com luz e som. A expectativa pairava no ar. Sorrisos nervosos, choradeira e brincadeiras para descontrair. Foram quatro horas de ensaios, repassando cenas e textos repetidamente.

Francisca Xavier

Faltando uma hora para a entrada do público, tivemos alguns últimos momentos para nos alimentar, hidratar, ir ao banheiro, maquiar, vestir o personagem e o dirigir elenco todo para a coxia.

Ana Araújo

Ana Araújo

O público deve imaginar: o que acontece nos bastidores de uma peça de teatro? Um pouco de tudo eu diria. Na coxia, o clima era intenso: alguns suavam frio, outros tremiam, uns com dor de barriga e outros aparentavam uma extrema tranqüilidade… Esses, chegavam até a causar estranheza nos demais.

Anna Beatriz Sarcedo

Anna Beatriz Sarcedo

Os três alarmes tocam e a luz se apaga. Chegava o grande momento. Começava a primeira cena. Na coxia, aguardávamos ansiosos a reação do público. Sim, a reação do público é o termômetro do sucesso da peça, tanto para quem estava no palco, quanto para os que aguardavam a deixa para entrar. Com tantas entradas e saídas de personagens em cena, era extremamente importante a cooperação e a união do grupo, um sempre auxiliando o outro para que tudo desse certo.

Jajá Maravilha

Jajá Maravilha

Francisca Xavier recebeu o duro encargo de dar corpo e voz a “Lizandra Madeira Ortiz”. Uma alma em conflito afetada por duas perdas que desequilibraram sua mente: a morte da filha, Suzana Madeira Ortiz, aos dois anos de idade e a perda da riqueza e do status da família. Lizandra reage a esta situação negando os fatos e criando um mundo de fantasia em que sua filha continua viva, cursando a faculdade, em idade de se casar com um “bom partido” e criando importantes negócios imaginários para seu marido Raul. Ela é a personagem central interage com todos os outros personagens e permanece no palco durante toda a duração da peça.

João Trindade

João Trindade

Pessoalmente Francisca é uma mulher muito elegante, com uma voz excelente, mas ai termina a semelhança com a personagem. Segundo a própria, entrou para o teatro para vencer a timidez e a dificuldade de falar em público. Em sua performance no palco demonstrou ter atingido este objetivo, possivelmente em grau maior do que o esperava inicialmente.

Áureo Goulart

Áureo Goulart

No desenvolvimento do personagem de Lizandra foi notável o trabalho de voz exprimindo a arrogância com os que considerava inferiores, a ternura com o fantasma de sua filha e a sedutora doçura reservada para aqueles de quem queria obter alguma vantagem. No trabalho corporal foram notáveis os olhares, a expressão do sentimento no seu rosto e os gestos com as mãos: contidos e estudados como os de uma autêntica “bem-nascida”.

Ana Araújo dá corpo e voz a “Clotilde”, empregada de Lizandra. Clotilde faz o contraponto com o personagem de Lizandra, desbocada, atrevida, insolente, “escrachada”. Ela denuncia a real situação de escassez na cobertura, mas participa da loucura vigente submetendo-se à arrogância de Lizandra pelo pragmático motivo de não ter para onde ir, improvisando soluções para as demandas absurdas de sua patroa.

Raquel Mattos

Raquel Mattos

Ana Araújo, maranhense, empresária, contribuiu com a parte luxuosa do figurino da peça (Lizandra, Fifi, Sofia) além dos “uniformes de empregada”. É uma pessoa que ilumina o ambiente onde está. Iniciou o curso com o objetivo de superação íntima, como uma espécie de “terapia alternativa”. Pelo que se pôde notar no palco superou as próprias expectativas, encarnando com brilhantismo os trejeitos, o rebolado, as “mãos nas cadeiras”, o deboche e os momentos de submissão que se esperava de seu personagem.

Géssica "Géh" Hellmann

Géssica "Géh" Hellmann

Anna Beatriz Sarcedo ficou a cargo das aparições do fantasma de “Suzana Madeira Ortiz”. Como o fantasma do pai de Hamlet, Suzana é o elemento instigador por trás das atitudes de sua mãe. Paira no ar o mistério: seria ela um autêntico fantasma ou uma alucinação compartilhada por sua mãe Lizandra e sua avó Dona Yolanda?

Anna Beatriz, chamada carinhosamente pelos colegas de Bia, estudante de Direito, é uma jovem reservada, mas muito carinhosa quando se tem um contato mais íntimo. Não deixou explícitos seus objetivos ao participar do curso, mas dotou sua personagem do ar frio e distante que se espera de um “autêntico fantasma”, algo que não se coaduna com a sua real personalidade. Suas entradas e saídas de cena são com um caminhar leve, quase inefável.

Jajá Maravilha deu vida a “Raul”, marido de Lizandra. Beberrão irresponsável tenta recuperar na jogatina os bens dilapidados da família e só consegue endividar-se cada vez mais. Sempre descomposto, cambaleante, omite-se diante da loucura de Lizandra.

Jajá Maravilha tem o objetivo de seguir a carreira de ator e leva muito a sério essa intenção, sempre dando o máximo de si durante todo o curso, os ensaios e na própria apresentação. Durante a maior parte do curso serviu como parâmetro de entusiasmo e motivação para a busca do aperfeiçoamento para os demais membros do grupo podendo ser-lhe creditada, nesse aspecto, boa parte da evolução dos alunos e a qualidade do resultado final.

O “Raul” construído por Jajá é “espaçoso”: movimentos largos de corpo, braços quase estabanados, passos longos. Com sua voz potente, expressiva e versátil faz o personagem crescer na peça, atraindo a simpatia do público e despertando risadas com suas inúmeras entonações, até mesmo para o bordão que tantas vezes repete ao longo da peça: “Tô na área, se derrubar é pênalti”. O Raul de Jajá é um surpreendente “boa-praça”.

João Trindade atuou como “Dr. Marcelino”, o síndico do prédio e amigo da família. Um homem dígno e propósitos firmes, mas com uma fraqueza: sua paixão secreta por Lizandra. Ao ser rejeitado por Lizandra em seus avanços, desencadeia a crise que conduz a história ao trágico desenlace.

Na vida real, João é funcionário da Petrobrás e encarou a dificuldade de só poder freqüentar metade das aulas do curso, pois ficava embarcado em uma das plataformas da empresa. Pretende levar seu aprendizado no teatro para o contexto da vida de quem trabalha em plataformas de petróleo.

João compõs um Dr. Marcelino empertigado, de postura e gestos firmes, atitude determinada, que só abandona pela força da paixão, ao declarar-se para Lizandra.

Áureo Goulart assume a bengala de “Dona Yolanda”, mãe de Lizandra e avó de Suzana. Yolanda parece ter transmitido geneticamente sua ausência mental a Lizandra, vivendo de um passado de glórias e denunciando, com comentários senis e agressivos, mas com alto teor de comicidade, o que o demais personagens teimam em esconder sob o véu das aparências.

Áureo é persistente e disciplinado. Demonstrou essas qualidades ao assumir uma personagem difícil quase em cima da hora, substituindo uma aluna desistente. Seu desejo de seguir carreira como ator motivou-o a construir uma Dona Yolanda responsável pela maior parte das gargalhadas do público.

A Raquel Mattos coube o desafio de desenvolver “Sofia Madeira Ortiz”, irmã de Lizandra. Sofia é o componente de racionalidade no roteiro da peça, é a única personagem 100% lúcida e conseqüente de seus atos. A ela cabe a tarefa de trazer à tona as revelações mais importantes da história.

Raquel declaradamente decidiu-se a freqüentar o curso para “superar a timidez”. Sua persistência foi recompensada com uma Sofia convincente enquanto elemento lúcido, centrado, o que expressou no seu modo firme de caminhar e na elegância dos gestos, que emulam os de Lizandra, mostrando que tiveram a mesma educação, mas sem a afetação de sua irmã desvairada.

Christiano Silva calçou os sapatos do “Entregador de Pizza”, a quem coube a função de “observador externo”, o “estranho” em seu primeiro contato com o mundo insano dos Madeira Ortiz. Ele reage às situações como faria qualquer um de nós, desde à irritação inicial por não receber o pagamento pelos seus serviços até o medo desesperado quando se dá conta de que a loucura era maior do que parecia a princípio.

A melhor palavra para descrever Christiano durante o curso é “prestativo”. Foi o fiel escudeiro da Clotilde nos bastidores, sabia de antemão onde estavam todos os objetos de cena que a Clotilde precisava para suas entradas. Durante os ensaios mostrou-se sempre atencioso, ajudando os colegas quando esqueciam alguma fala, contribuindo para a formação de um sentimento de grupo. Como Áureo, entrou em substituição a um aluno desistente e tirou partido de sua estatura – mais de um metro de noventa – para destacar o único “ser humano normal” presente no palco.

Amanda Laet é “Jussara”, a “prima pobre” trabalhadora, que se deixa enganar pelo falso glamour dos Madeira Ortiz. Para Jussara, tudo e todos na Cobertura são “chiques”, incluindo a empregada, o porteiro e o entregador de pizza.

Amanda é sorridente, animada e falante. Cursa Jornalismo e pretende seguir carreira no teatro. Sua Jussara reflete esse contagiante entusiasmo juvenil, mantendo um astral leve mesmo nos momentos mais tensos do roteiro.

Jorge Eduardo Magalhães, autor da peça e assistente de direção, estreou como ator no papel do “Oficial de Justiça”. O Oficial de Justiça surge na história como aquele que “cai na arapuca” dos Madeira Ortiz. Pensando tratar-se de pessoas normais, sucumbe ao encanto sedutor de Lizandra e abre o caminho para a tragédia. Na rápida aparição desse personagem-chave, Jorge convence na dissolução progressiva de sua sisudez pelo charme de Lizandra. Para Jorge, a experiência como ator auxiliou-o muito em seu objetivo de se estabelecer como roteirista e escritor, pois pôde “sentir na pele” o que realmente significa dar vida no palco a um personagem de sua imaginação.

Géssica Hellmann, a Géh, participou do curso com o objetivo de divertir-se, fazer amigos e ganhar desembaraço. Sente que conquistou todas essas metas com sua “Fifi Sales Amaral”, socialite falida, “amiga íntima” de Lizandra que, como a protagonista, vive de aparências e glórias passadas.

Fifi surge na história como que para sugerir que o mal que acomete Lizandra não é exclusividade dos “Madeira Ortiz”, mas uma espécie de epidemia social.

Para desenvolver sua Fifi, Géssica contou com a ajuda, conselhos e incentivo tanto de seus colegas de turma quanto de amigos atores como Sole Mazzetto e Marco Cardozo. “Liberte a perua que existe dentro de você”, foi o conselho mais ouvido. O resultado foi uma Fifi cômica, quase “desmunhecante”, num interessante contraste com o jeito contido e estudado de Lizandra.

Indicação de Leitura:

Teatro

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Massagem: filosofia, ciência e crenças num cardápio multicolorido

August 4th, 2009 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Corporalidade e Bem Estar

Preocupações, dores, tensão e estresse: essas palavras, tão comuns no vocabulário do homem urbano contemporâneo, estimulam a oferta de terapias que se propõem a aliviá-los. Quando não encontramos solução nos consultórios médicos, abre-se para nós um vasto leque de terapias corporais alternativas, cada uma com promessas, alcance e limitações, variando desde o simples alívio de sintomas até à função de auxiliar em tratamentos clínicos convencionais. Podemos citar como exemplos a acupuntura, a fitoterapia, a massagem, o t’ai c’hi ch’uan, a yoga e a meditação.

Relax por Carol Maybin

Mas cada um desses nomes é apenas a ponta do iceberg. Neste artigo, abordaremos apenas a “massagem”, um nome comum a práticas tão diversas que o primeiro problema com que nos deparamos foi com a dificuldade de defini-la.

Segundo Cesana et al (2004), a palavra “massagem” seria derivada do grego “massein”, significando “amassar”, tendo chegado até o português através do verbo francês ”masser”.

Mas massagear é o mesmo que “amassar”? O Aurélio define massagem como “compressão metódica do corpo, ou de parte dele, para melhorar a circulação ou para que se obtenham outras vantagens terapêuticas”. Essa definição dicionarizada, porém, não abrange todas as práticas costumeiramente chamadas de “massagem”. Uma sessão de massagem pode envolver, além de técnicas de “amassamento”, técnicas de deslizamento, fricção, pressão e batimentos.

Mais detalhadamente, encontramos em “Medicina de Reabilitação” (1992) as seguintes ações associadas à massagem: “alisamentos”, “rolamentos”, “amassamentos”, “torceduras”, “beliscamentos”, “cuteladas”, “pancadas”, “socos”, “palmadas”, “vibração”, “agitação” e “fricção profunda”.

A massagem parece constituir uma sistematização de um gesto instintivo, observado até mesmo em animais: o ato de esfregar ou pressionar um local dolorido para obter alívio. Embora se encontrem registros do uso terapêutico da massagem já na Grécia Antiga, e ainda anteriormente, nas medicinas tradicionais da Índia e na China, é só no século XIX que a massagem recebe uma abordagem científica, com os trabalhos de Peter Henry Ling, a quem se atribui a paternidade da massoterapia moderna.

Atribuem-se benefícios e objetivos à massagem tão diversos quanto suas variações. Segundo Cesana (2004), estudos científicos indicam que a massagem “pode contribuir para a melhoria da flexibilidade, da circulação sangüínea, da qualidade de movimentos, além de aliviar dores e de proporcionar o relaxamento muscular”, além de gerar “benefícios ao indivíduo tanto no aspecto físico quanto no mental e emocional… [pois,] quando fazemos massagem (aplicando ou recebendo), há um relacionamento com a outra pessoa por meio da pele, do tato e do toque, despertando, dessa maneira, vários tipos de sensações por todo o corpo”. Por esses motivos, a massagem seria aplicável em trabalhos de consciência corporal, autoconhecimento e auto-organização. Incluem-se ainda entre os benefícios atribuídos à massagem melhorias na circulação sanguínea e linfática, além de aumento na capacidade respiratória.

Segundo Carolina Cunha da Silva (2006), a massagem, teria “propriedades” diferentes conforme duas variáveis: pressão e velocidade:

Lenta e superficial – relaxante e analgésica.

Lenta e profunda – desintoxicante.

Rápida e profunda – nutritiva, tonificante.

Rápida e superficial – excitante do sistema nervoso.

Mas há limitações e contra-indicações. Segundo o site Portal da Massagem (2006), não se deve massagear áreas inflamadas ou com lesões visíveis, cartilagens de conjunção das crianças; calos ósseos ou articulações com lesões; o ventre das grávidas a partir do 3º mês ou um paciente com o estômago ou bexiga cheia.

A massagem também é “medicamente contra-indicada sobre malignidades, ferimentos abertos, tromboflebite e tecidos infectados. Uma técnica de massagem inapropriada pode causar dano se aplicada em tecido mole calcificado, pele que sofreu alterações tróficas, enxertos de pele, tecido agudamente inflamado, ou durante uma terapia anticoagulante. Tem sido relatada lesão nervosa quando a acupressura é aplicada vigorosamente demais, resultando em compressão nervosa periférica devida à formação de hematoma” (Medicina de Reabilitação, 1992).

A massagem pode deixar de ser benéfica e até prejudicar pacientes quando as técnicas de massagem não são as mais indicadas para a situação em tratamento por falta de um diagnóstico correto, o terapeuta não consegue detectar o verdadeiro problema tenta conseguir com a massagem algo que não sabe, ou ainda quando o terapeuta diz-se massagista mas, de fato, não sabe o que é massagem (Portal da Massagem, 2006).

Este último fato traz à tona a questão da qualificação profissional. Segundo Cesana (2004), em sua amostra pesquisada, apenas 1 entre 20 fisioterapeutas e 6 entre 24 terapeutas ocupacionais receberam orientações acadêmicas sobre massagem. Entre os profissionais de Educação Física, a situação seria ainda pior, pois a massagem deixou de ser disciplina obrigatória na formação curricular e são poucas as universidades que a oferecem sequer como disciplina optativa.

Também não contribui muito para o esclarecimento do público a imensa quantidade de técnicas e nomes exóticos que misturam crenças religiosas, filosofia e conhecimento pseudocientífico com práticas e técnicas realmente eficazes.

Para efeito meramente ilustrativo, apresentamos, a seguir, uma amostra do “fundamento” científico, filosófico e/ou religioso de apenas algumas das técnicas mais populares de massagem (Portal da Massagem, 2006).

Massagem Anma – Massagem tradicional japonesa que teria mais de 5.000 anos, originária do período do Imperador Amarelo chinês, Hwang Ti. Embora seja atribuída uma origem tão antiga, ela também é chamada de “Massagem Energética Japonesa”, “Massagem Sentada”, “Massagem Expresso” ou “Quick Massage”, pois é muito utilizada em sessões de cerca de 15 minutos, com o paciente vestido e na posição sentada. Sua prática envolve movimentos de pressão e alongamento executados com os polegares, dedos, braços, cotovelos, joelhos e pés em pontos de acupressura, sem utilização de qualquer tipo de óleo, podendo ser aplicada em qualquer ocasião e lugar, inclusive locais públicos.

Massagem Ayurvédica – Técnica tradicional da Índia, empregada como terapia complementar associada à Medicina Ayurvédica, palavra que significaria “Conhecimento da Vida Humana” em sânscrito. É uma técnica de massagem profunda que alia movimentações vigorosas em toda a massa muscular conjuntamente com manobras de tração e alongamento, além da estimulação de pontos e órgãos, empregando-se óleos naturais aquecidos. É realizada com o paciente deitado no chão, sobre um tatame.

Massagem Biodinâmica – Criada na década de 1950 pela psicóloga e fisioterapeuta norueguesa Gerda Boyesen, para alívio de stress sem a utilização de drogas ou sessões de psicoterapia, como parte de sua terapia alternativa chamada “psicologia biodinâmica”. A técnica da Massagem Biodinâmica seria aplicada aos ossos, aos músculos, à pele e à “aura energética”, através de movimentos circulares sobre o corpo do paciente para relaxá-lo. Nas sessões de Massagem Biodinâmica, o terapeuta emprega um estetoscópio longo sobre o abdomen do paciente para perceber sua “linguagem corporal”, expressa através de “sons psico-peristálticos”.

Massagem Californiana – Também conhecida como Massagem Esalen, tem sua origem no Instituto Esalen (EUA), no início da década de 1960. Exige-se que os terapeutas sejam oficialmente credenciados pelo Instituto. É uma técnica híbrida da Massagem Sueca e uma técnica de trabalho corporal alemã, sem pretensão à cura de doenças. Privilegia o descanso e o desenvolvimento da sensibilidade corporal. Caracteriza-se pela utilização de óleo em todo o corpo e por movimentos amplos compondo uma seqüência de manobras suaves e lentas. Durante uma sessão de massagem Esalen, a atenção pessoal é mais enfatizada do que a técnica propriamente dita.

Massagem Chavutti Thirummal – Massagem orginária da região de Kerala, sul da Índia. Entre todas as técnicas de massagem é a que apresenta níveis de pressão mais profundos, pois o terapeuta desliza os seus pés sobre o corpo do paciente, devidamente untado com óleos. Para manter o equilíbrio, o terapeuta apóia-se em cordas presas ao teto.

Massagem Desportiva – conjunto de técnicas específicas orientadas para aumentar o rendimento de atletas.

Massagem de Drenagem Linfática – técnica de massagem desenvolvida pelo casal Emil e Estrid Vodder na década de 1930. Caracteriza-se por movimentos circulares e em espiral, suaves e precisos, sobre os centros dos gânglios linfáticos.

Massagem de Recuperação – conjunto de técnicas de massagem localizada para recuperação gradual de uma região lesionada do corpo, com objetivos terapêuticos e sob prescrição médica.

Massagem de Reflexoterapia – Parte da Reflexologia, baseia-se no conceito de que todas as estruturas do corpo se encontram interligadas. Assim, exercendo pressão sobre uma zona específica do pé, um paciente poderia curar de um mal-estar em outra parte do corpo. A Reflexoterapia é praticada através de pressões rítmicas em pontos específicos dos pés, de acordo com um “mapa” em que se associam pontos específicos do pé a órgãos do corpo humano.

Reiki Dinâmico – Uma combinação de reiki e massagem. A prática de Reiki Dinâmico combina o toque das mãos com movimentos ondulatórios na membrana fascial, que envolve todos os órgãos do corpo.

Massagem Rolfing – Criada pela bioquímica americana Ida Rolf (1896-1979). Fundamenta-se na idéia de que muitas doenças seriam provocadas por problemas posturais, que poderiam ser atacados com um complexo sistema de manipulação chamado “reintegração estrutural”. A prática do Rolfing envolve massagens no tecido conjuntivo e nos músculos, com objetivo de realinhar a estrutura física na vertical, com toques profundos e precisos que incluem os dedos e os cotovelos.

Massagem Sacro-Craniana – Criação do médico John Upledger, esta técnica procura, através de toques extremamente suaves, detectar e corrigir alterações no funcionamento do sistema sacro-craniano (cabeça e medula).

Massagem Shantala – Massagem indiana sistematizada e trazida para o Ocidente pelo obstetra francês Frederick Leboyer, após observar, em Calcutá, uma mulher chamada Shantala massageando o seu bebê. É, portanto, uma massagem especial para bebês, num ambiente calmo, silencioso ou com uma música ambiente, com óleos vegetais ligeiramente aquecidos, para evitar atritos na pele sensível.

Massagem Sueca – Desenvolvida pelo atleta sueco Per Henrik Ling no século XIX, aliando conhecimentos de ginástica à prática da massagem chinesa. Consiste em pressionar diferentes pontos do corpo no sentido do fluxo sanguíneo, empregando-se óleos de massagem ou talco para reduzir a fricção.

Shiatsu – Forma de massagem originária do Japão fundamentada na Medicina Tradicional Chinesa, combinando a massagem com a pressão nos pontos de acupuntura chineses. Deu origem a várias escolas e técnicas diferencias ao longo do século XX.

Deep Tissue Massage – Técnica de massagem que se dirige a partes profundas do tecido muscular. Seu objetivo é o tratamento de doenças crônicas decorrentes de lesões não tratadas na fase aguda, empregando movimentos lentos, pressão direta e fricção, para liberar toxinas. A sessão tem duração curta, para evitar traumatismos.

Técnica de Alexander – criação do ator australiano Frederick Matthias Alexander, busca a reeducação postural e respiratória com o objetivo de atingir um alinhamento mais adequado da cabeça, pescoço e coluna.

Massagem Watsu – Variação do Shiatsu praticado numa piscina de água morna, criado pelo americano Harold Dull em 1980. A palavra Watsu é um barbarismo que combina a palavra inglesa “Water” (água) com Shiatsu.

Como se pode perceber após ler essa lista, a massagem se destina a ser uma prática corporal agradável e contribuir para a saúde. O problema é escolher em que acreditar em meio a tantas opções e explicações exóticas. Para variar, um bate-papo com um médico bem-informado pode fazer a diferença entre uma experiência física e psicologicamente gratificante ou um belo motivo de arrependimento.

Fontes:

CESANA, Juliana, et al. Massagem e Educação Física: perspectivas curriculares. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte – 2004, 3(3):89-97 Disponível em http://www.mackenzie.br/editoramackenzie/revistas/edfisica/edfis3n3/art7_edfis3n3.pdf Acesso em 8/12/2006.

Medicina de Reabilitação – Princípio e Prática – Vol I, 1992 – disponível em http://www.cdof.com.br/massagem1.htm – acesso em 08/12/2006

Portal da Massagem. http://www.portaldamassagem.com/ . Acesso em 8/12/2006.

SILVA, Carolina Cunha da. O que é mesmo massagem? Disponível em http://www.coladaweb.com/edfisica/massagem.htm , acesso em 08/12/2006.

Livros recomendados:

O livro essencial de massagem


OsSegredos da Massagem Ayurvédica

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Terapias Corporais

August 4th, 2009 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Corporalidade e Bem Estar

Por Géssica Hellmann

O estudo da corporalidade está cada vez mais presente em atividades da área clínica, especialmente junto a equipes multidisciplinares, exigindo elementos básicos necessários para o desenvolvimento da consciência corporal. Neste artigo, procedo a uma introdução às terapias corporais: Cinesioterapia, Calatonia, Shiatsu e Watsu.

Touch por Michael Glaster

Touch por Michael Glaster

Cinesioterapia

Segundo Cruz e Guimarães (2006), aproximadamente entre 4000 a.C e 395 d.C “o movimento humano era utilizado no tratamento de disfunções já estabelecidas, já instaladas e faziam parte das funções dos sacerdotes”. Ocorreu uma interrupção nos estudos da área da saúde corporal na Idade Média, pois na época o corpo tinha menos importância que o culto ao espírito. Já no final da Idade Média e no início do Renascimento, a beleza física começa a ser revalorizada. “Ao final do Renascimento, Don Francisco e Ondeano Amorós (1779-1849) dividiram a ginástica em quatro pontos, sendo o terceiro ponto a cinesioterapia, que tinha a finalidade de manutenção de uma saúde forte, tratamento de enfermidades, reeducação de convalescentes e correção de deformidades”.

As autoras afirmam que os primeiros estudos sobre a utilização dos exercícios terapêuticos datam da Grécia e Roma antigas, porém, foi a partir da I Guerra Mundial que houve um aumento acentuado da utilização deste recurso para a reabilitação de pacientes, devido ao grande número de incapacitados durante e após os combates, favorecendo o crescimento da fisioterapia e da cinesioterapia.

“Auguste Georgii (1847),ao utilizar o termo cinesioterapia, propunha esta definição:”O tratamento das doenças através do movimento”; a cinesioterapia ativa é, assim, a parte da fisioterapia que utiliza o movimento provocado pela atividade muscular do paciente com uma finalidade precisamente terapêutica. Entretanto essa noção de movimento é muito restritiva, portanto se incluem inteiramente no quadro da cinesioterapia ativa solicitações musculares de estabilizações que não induzem nenhum deslocamento das alavancas ósseas.” (Rosa Filho, 2006).

O autor afirma que mais recentemente, Boris Dolto propôs outra definição: “A cinesioterapia não é um tratamento através do movimento, mas o tratamento do movimento”. A noção de movimento deve ser entendida em um sentido amplo, porque a atividade postural de equilíbrio está inteiramente inclusa no processo terapêutico podendo mesmo ser a iniciadora. É o que encontramos nos métodos fisioterapêuticos conhecidos como base proprioceptiva ou ainda de reprogramação neuromotora. O recrutamento da atividade muscular não é somente voluntário mas também automático ou reflexo.”

A cinesioterapia baseia-se nos conhecimentos de anatomia, fisiologia e biomecânica, a fim de proporcionar ao paciente um melhor e mais eficaz trabalho de prevenção, cura e reabilitação. A sua indicação é bastante criteriosa, necessita de avaliação para traçar objetivos e estratégias, além de reavaliações freqüentes, visando à atualização junto à progressão do paciente e em conseqüência da necessidade de correções ao programa inicial até atingir o potencial de recuperação esperado. (Cruz e Guimarães, 2006)

Calatonia

Calatonia é um método terapêutico criado pelo médico húngaro Pethö Sándor trabalhando no Hospital da Cruz Vermelha, durante a Segunda Guerra Mundial.

Segundo Farah (2006), dadas as precárias condições geradas pela guerra, os recursos médicos existentes eram de pouca ajuda no atendimento dos pacientes. Embora a especialidade de Sándor fosse a Ginecologia/Obstetrícia, ele foi designado para o cuidado de pessoas portadoras dos mais variados traumatismos, conforme ele mesmo relatou, ao falar sobre o surgimento de seu método:

“Idealizou-se este método durante a Segunda Guerra Mundial, com base nas observações feitas em casos de readaptação de feridos e congelados, no período posterior à grande retirada da Rússia. Num hospital da Cruz Vermelha foram atendidas as mais diferentes queixas na fase pós-operatória, desde membros-fantasmas e abalamento nervoso, até depressões e reações compulsivas”.

Sándor observou o seguinte:

“Além da medicação costumeira e dos cuidados de rotina, o contato bipessoal, juntamente com a manipulação suave nas extremidades e na nuca, com certas modificações leves quanto à posição das partes manipuladas, produzia descontração muscular, comutações vasomotoras e recondicionamento do ânimo dos operados, numa escala pouco esperada.”

Machado (2006) afirma que “No processo da Calatonia, observa-se ainda a vinculação corporal do terapeuta ao paciente durante todo o período de aplicação dos toques, período este em que um amplo envolvimento bi-pessoal se estabelece, produzindo um conjunto peculiar de ressonâncias psico-físicas”.

A Calatonia, enquanto método de relaxamento visa, evidentemente, promover efeitos de soltura e/ou distensão muscular, ou seja a “regulação” do tônus. Mas sua atuação vai além do nível apenas muscular, promovendo também “reorganizações psico-fisiológicas” em vários níveis.

O procedimento básico da Calatonia consiste em uma série de “toques”, que o terapeuta realiza em vários pontos do corpo. Uma característica importante da pele, segundo Farah (2006), que diz respeito à sua própria origem e formação durante nosso desenvolvimento ainda no útero materno: “As células que lhe dão origem provêm da mesma camada embrionária da qual se forma nosso sistema nervoso central, ou seja, a ectoderme”. O toque na pele reage diretamente no funcionamento do sistema nervoso.

A autora conclui que “se aceitarmos que a principal meta da psicoterapia é criar condições para que a pessoa amplie a consciência que tem de si própria, a ponto de poder expressar tão plenamente quanto possível suas potencialidades individuais com equilíbrio e criatividade; se aceitarmos ainda que cada pessoa é um todo indivisível e que seu corpo e seu psiquismo são apenas diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, então podemos entender a função da Calatonia, como um importante recurso na facilitação do nosso acesso ao mundo interno do ser humano”.

Shiatsu

Luz (2006) diz que Shiatsu é uma forma de intervenção da racionalidade médica chinesa desenvolvida no Japão. Este país já possuía uma antiga tradição de massagem, originária da China, chamada anma ou amma (do chinês an mo, pressionar e esfregar), desenvolvida a partir do período Edo (1603-1867). Inicialmente praticada por cegos, o anma não tem como centro de sua atenção clínica as categorias de canais ou de cavidades (jing e xue, comumente traduzidos como meridianos e pontos) e possivelmente por isso foi lentamente perdendo prestígio na comparação com os diagnósticos sofisticados de outras formas da racionalidade médica chinesa – como o tratamento com remédios ou acupuntura – chegando ao final do século XIX rotulado como massagem estritamente relaxante e para o prazer, únicos objetivos para os quais era licenciada (recentemente os aspectos terapêuticos do anma têm sido recuperados pelo trabalho do prof. Mochizuki Shogo, radicado nos EUA, que editou alguns livros sobre sua tradição familiar de anma com grande sucesso).

A massagem Shiatsu proporciona uma prática de re-educação física e mental através da sensibilização de todos os pontos energéticos do nosso corpo, na busca de uma saúde plena e satisfatória. A fim de obter o re-equilíbrio foram desenvolvidas diferentes técnicas para eliminar energia em excesso, desbloquear energia estagnada, distribuir energia harmoniosamente e absorver maior quantidade e qualidade de energia.

“O shiatsu é uma modalidade terapêutica da racionalidade médica chinesa e, como as demais, tem sua intervenção orientada para a reconfiguração da ordem vital. Através da pressão no corpo do paciente, o shiatsuterapeuta a um só tempo adquire informações e envia comandos de reconfiguração dessa ordem, valendo-se da rede de canais e das cavidades para tanto. Essa atividade de toque atua em dois planos principais. O primeiro, das configurações do qi e do Sangue, especialmente no tocante à sua circulação. O segundo é o plano do shen ou espírito”. (Luz, 2006)

O autor afirma que “Em relação ao toque, as manobras objetivam incrementar (otimizando o estado geral da circulação), regular (desfazendo bloqueios e restaurando o sentido normal do fluxo do qi em caso de contrafluxo) e ainda dragar os canais e remover estagnação provocadas pelo frio, umidade etc, de origem externa bem como interna. Pode-se ainda usar o toque para invocar as propriedades terapêuticas características de cada uma das cavidades”.

“Na medicina chinesa o tato é o sentido atribuído ao elemento fogo e, portanto, ao Coração. Como o Coração é o coordenador maior de toda a atividade psíquica e afetiva do ser, de sua capacidade de intermediar o interno (subjetivo) e o externo (objetivo) e, portanto, de sua própria sanidade mental, esta assertiva da Tradição é da maior importância para o massagista. O toque é a via de excelência para a comunicação entre os Corações do praticante e o do paciente e é através dele que é possível dizer, muito claramente, que se está cuidando de um paciente, e não examinando ou diagnosticando um portador de alguma patologia. Para que essa comunicação aconteça, contudo, é fundamental que o toque seja firmemente inspirado pela sensibilidade, ou seja, que não se trate de um toque mecânico, fundamentado em alguma diagnose prévia e aplicado a despeito dos sinais que o corpo do paciente dê.” (Luz, 2006).

Watsu

Boccuzzi, Esteves e Ramalho (2006) “Watsu (water shiatsu) não é uma simples técnica de massagem na água. Essa terapia física e psicológica melhora a flexibilidade e mobilidade dos tecidos através de massagem, alongamentos e mobilização rítmica desenvolvida em água aquecida à 35 graus, possibilitando a diminuição do tônus muscular, conseqüentemente um relaxamento físico e psicológico. A água aquecida e a sustentação continua proporcionada por ela são ideais para soltar a musculatura. Tira-se a sobrecarga da estrutura óssea e há o relaxamento dos músculos. A circulação não é mais restrita pela contração e pode, então, conduzir os metabólitos deixados nos músculos, reduzindo assim a dor e a fadiga. Os estados sem peso causam uma redução da necessidade de oxigênio, ajudando a acalmar a respiração”.

Segundo Watsu (2006), o Watsu foi desenvolvido por um americano chamado Harold Dull, em meados de 1980, a partir de um estudo sobre várias terapias em águas quentes, feito no Japão.

O autor afirma que a diferença do Shiatsu para a Watsu é que a primeira fundamenta-se na pressão dos dedos e cotovelos em pontos de tensão do corpo, dando prioridade ao toque do terapeuta, já no Watsu, os movimentos e torções são livres já que todo trabalho terapêutico ocorre dentro da água aquecida. O Watsu associa movimentos rotacionais harmoniosos, alongamentos, trações nas articulações e pressões em pontos de tensão muscular. Tendo a sustentação da água e os movimentos rítmicos e contínuos que fluem de uma posição para outra, o praticante experimenta uma fantástica sensação de bem estar. Durante a sessão são realizados em torno de 45 movimentos diferentes, respeitando o tempo de cada movimento de acordo com a necessidade do praticante e a do terapeuta. A passagem de um movimento ao outro ocorre de forma tranqüila sem que o praticante necessite se apoiar ou sair do estado de relaxamento o que mais uma vez permite ao praticante um estado meditativo.

Como podemos observar a cinesioterapia trabalha o movimento corporal, a calotonia e o shiatsu trabalham através do estimulo do toque e de certa forma podemos dizer que a técnica recente de watsu trabalha no ambiente aquático o toque e o movimento como forma de terapia.

Como toda atividade corporal é preciso procurar profissionais capacitados, buscar informações sobre cada especialidade e preferencialmente a que melhor se aplica a sua condição. Buscar o prazer, o bem estar físico e emocional através da corporalidade é importante para manter a harmonia consigo mesmo e com o ambiente em que vive.

Bibliografia

Boccuzzi, Paulo Cardozo de Mello. Esteves Júnior, Ivaldo. Ramalho, Tatiane Thaís. Watsu na Fibromialgia. Disponível em: < http://www.watsubrasil.com/29.htm>. Acessado em: 01/12/2006.

Cruz, Mônica Cardoso da. Guimarães, Layana de Souza. Exercícios terapêuticos: A cinesioterapia como importante recurso da fisioterapia. Lato & Sensu, Belém, v. 4, n. 1, p. 3-5, out, 2003.

Farah, Rosa Maria. A calatonia: A “pele” e o “contato”, suave e atento como parte integrante da Psicoterapia. Disponível em: < http://www.rubedo.psc.br/artigosb/calatoni.htm>. Acessado em: 01/12/2006.

Luz, Daniel. Shiatsu e a formação de recursos humanos. Disponível em : < http://taijiquan.pro.br/acupuntura/shiatsu-formacao/>. Acessado em:01/12/2006.

Machado, Paulo. A Calatonia Como Relacionamento. Disponível em: < http://www.calatonia.net/calatonia.htm>. Acessado em: 01/12/2006.

Rosa Filho , Blair José. Cinesioterapia ativa (noções básicas). Disponível em: . Acessado em: 01/12/2006.

Watsu®, terapia corporal aquática. Disponível em: < http://www.cdof.com.br/watsu1.htm>. Acessado em: 01/12/2006.

Livros recomendados:

O corpo em terapia


Linguagem do movimento


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A Ansiedade por uma Caixinha: Benzodiazepínicos, Dependência e Síndrome de Abstinência

August 4th, 2009 by Alexis Kauffmann | 1 Comment | Filed in Saúde

Afinal, o que é ansiedade? É uma doença, um sintoma, transtorno passageiro ou “frescura”? Existe tratamento para ansiedade ou é algo com que se deve conviver? Deve-se tratá-la com “calmantes”, “tranqüilizantes”? A propósito, “tranqüilizantes” viciam? Caso provoquem dependência, então “tranqüilizantes” são “drogas pesadas”? Se você parar de tomar um “tranqüilizante”, vai ter “síndrome de abstinência”?

Na busca de respostas simples e diretas para essas perguntas o paciente mergulha em um labirinto de discussões, com mais polêmicas do que conclusões. A maior parte dessas discussões pode não fazer muita diferença para o paciente não-médico que esteja se sentindo ansioso por uma caixinha de “coloridas pílulas de tranqüilidade instantânea”… Mas, conforme a visão que o médico tenha do assunto, fará muita diferença no modo como ele será tratado nos consultórios, ambulatórios e emergências hospitalares. Por isso vale a pena agarrar-se à ponta de um fio de Ariadne e dar uma espiada nesse labirinto antes de mergulhar de cabeça vazia e mãos nua no reino do Minotauro Benzodiazepínico… Pois o caminho de volta pode ser difícil, complicado e, muitas vezes, o único caminho pode ser seguir em frente.

Crouched por Claus Heinecke

Na entrada do Labirinto: o que é Ansiedade?

A ansiedade é uma reação biológica natural do organismo a uma situação de desafio, que exija ação imediata – chamada de situação “estressora”. Desta forma, o organismo fica preparado para agir de modo a enfrentar, resolver e remover o problema de seu ambiente. Após enfrentar e resolver o problema ou ameaça, ou seja, removido o agente “estressor”, não há mais motivo para que o organismo mobilize tantos recursos e ele volta ao seu estado normal.

“Nosso potencial ansioso sempre se manteve fisiologicamente presente e sempre carregando consigo o sentimento do medo, sua sombra inseparável. É muito difícil dizer se era diferente o estresse (esta revolução orgânica e psíquica) que acometia o homem das cavernas diante de um urso invasor de sua morada daquilo que sente hoje um cidadão comum diante do assaltante que invade seu lar. Provavelmente não. Fazem parte da natureza humana certos sentimentos determinados pelo perigo, pela ameaça, pelo desconhecido e pela perspectiva de sofrimento” (Ballone, GJ, 2002).

O mesmo autor apresenta, mais adiante, uma descrição dos três níveis de manifestação da Ansiedade:

“A Ansiedade pode se manifestar em três níveis: neuroendócrino, visceral e de consciência. O nível neuroendócrino diz respeito aos efeitos da adrenalina, noradrenalina, glucagon, hormônio anti-diurético e cortisona. No plano visceral a Ansiedade corre por conta do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), o qual reage se excitando (sistema simpático) na reação de alarme ou relaxando (sistema vagal) nas fases de esgotamento. Na consciência, a Ansiedade se manifesta por dois sentimentos desagradáveis: 1 – Através da consciência das sensações fisiológicas de sudorese, palpitação, inquietação, etc. e 2 – Através da consciência de estar nervoso ou amedrontado”.

Essa descrição fria e objetiva do fenômeno da Ansiedade no nível orgânico manifesta-se de forma muito variável de indivíduo para indivíduo. Algumas pessoas sentem palpitações, suor ou opressão no peito. Outros sentem náuseas, vômito, diarréia ou vazio no estômago. Outras pessoas apresentam mal-estar respiratório. Outras pessoas sentem tensão muscular exagerada, que pode se manifestar através de espasmos, torcicolo e dores na coluna.

O que acontece é que, para certas pessoas, a ansiedade é incontrolável e permanecem as sensações de “medo, apreensão e tensão constantes” sem motivo aparente, nenhuma doença física ou situação externa que as justifiquem. Nessas pessoas, os sintomas de ansiedade surgem espontaneamente, sem nenhum motivo identificável. Mesmo quando há um motivo, os sintomas parecem exagerados diante das dimensões reais do desafio que a pessoa enfrenta.

A partir deste ponto, termina o consenso e começam as infinitas bifurcações do labirinto. A ansiedade pode assumir muitas formas diferentes: ataques de ansiedade ou pânico, fobias, transtornos obsessivos ou doenças psicossomáticas. Pode surgir como transtorno isolado, associado a outras patologias (“co-morbidade”) como a depressão ou, ainda, como sintoma de outros distúrbios psíquicos. Pode ser “Normal”, quando exerce sua função de ajudar-nos a nos adaptar às diferentes circunstâncias da vida, ou pode ser “Patológica”, quando é inadequada à duração e à intensidade da situação estressora. Pode ser entendida como um fenômeno predominantemente psico-fisiológico, quanto determinado pela própria estrutura social em que vivemos:

“Há autores que definem a era moderna como a Idade da Ansiedade, associando a este acontecimento psíquico a agitada dinâmica existencial da modernidade; sociedade industrial, competitividade, consumismo desenfreado e assim por diante.
Diz-se que a simples participação do indivíduo na sociedade contemporânea já preenche, por si só, um requisito suficiente para o surgimento da Ansiedade. Portanto, viver ansiosamente passou a ser considerado uma condição do homem moderno ou um destino comum ao qual todos estamos, de alguma maneira, atrelados… As teorias psicossociais sobre a gênese da Ansiedade são exaustivamente estudadas, não só pela medicina como também pela psicologia, pela sociologia, pela antropologia e pela filosofia” (Ballone, GJ, 2002).

Tratamento para Ansiedade: a ante-sala do Labirinto

Essa imensa variedade de tipos de Ansiedade cria um problema ligado ao diagnóstico e, conseqüentemente, ao tratamento do problema. No DSM IV, uma classificação internacional de doenças, o tema “Ansiedade” é dividido em nada menos do que 13 tópicos:

1. Agorafobia Ataque de Pânico
2. Transtorno de Pânico Sem Agorafobia
3. Transtorno de Pânico Com Agorafobia
4. Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico
5. Fobia Específica
6. Fobia Social
7. Transtorno Obsessivo-Compulsivo
8. Transtorno de Estresse Pós-Traumático
9. Transtorno de Estresse Agudo
10. Transtorno de Ansiedade Generalizada
11. Transtorno de Ansiedade Devido a Condição Médica Geral
12. Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância
13. Transtorno de Ansiedade Sem Outra Especificação.

Devido à própria complexidade do problema, torna-se extremamente complicado descrever “o melhor” tratamento para Ansiedade. Além do diagnótico diferencial, do estudo do caso individual, pairam divergências até mesmo sobre o tratamento mais adequado para casos específicos. De uma maneira geral, o objetivo de todo tratamento para ansiedade envolve quatro pontos:

“1. Diminuir os sintomas mórbidos para o pacientes readquirir a indispensável sensação de segurança;
2. Fortalecer a sensibilidade (afetividade) da pessoa para ser capaz de suportar melhor os estresses da vida;
3. Procurar resolver seus conflitos íntimos;
4. Se possível, lidar com os estressores” (Ballone GJ, 2003).

No meio de atingir esses objetivos é que reside o ponto do labirinto em que o paciente tende a se desorientar entre opiniões divergentes e respostas contraditórias, confusões conceituais, definições acadêmicas bizantinas e preconceitos diversos.

Na minha experiência como paciente não-médico, já ouvi, em consultórios e ambulatórios, desde uma recomendação para “aprender a conviver com a ansiedade como um fato da vida” até vaticínios de que “essa história de dependência de benzodiazepínicos é besteira”. Entre o preto e o branco, todas as cores do arco-íris: psicoterapia, psicanálise, tratamento fitoterápico, homeopatia, acupuntura, yôga, meditação, exercícios físicos, tratamento farmacológico com ansiolíticos benzo e não-benzodiazepínicos por tempo limitado ou “pelo tempo que for necessário”, isto é, sem prazo definido. Estou excluindo, evidentemente, rótulos como “coisa de maluco”, “frescura” ou “luxo de rico”, entre outros absurdos que, diante dos dados já apresentados, nem vale a pena comentar, apenas registrar.

Por uma questão de espaço, não vou tratar aqui do alcance e das limitações dos tratamentos não-farmacológicos, limitando-me a apresentar os fundamentos de opiniões diversas sobre o uso de benzodiazepínicos para tratamento da ansiedade e abordar a questão da dependência/abstinência possivelmente relacionada ao uso desses fármacos, sempre do ponto-de-vista subjetivo de um paciente não-médico.

O início do Labirinto: Tranqüilizantes são uma droga?

“Droga é toda e qualquer substância natural ou sintética que, introduzida no organismo, modifica suas funções… Atualmente, a Medicina define droga como sendo: qualquer substância que é capaz de modificar a função dos organismos vivos, resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento” (Portal Unimed).

Por essa definição, qualquer fármaco – medicamento, remédio – pode ser considerado uma droga. Até mesmo aquele chazinho milagroso tiro-e-queda para bronquite, receita secreta da sua avó, se realmente fizer efeito, pode ser considerado uma droga.

Para efeito de um artigo sobre ansiedade, o que nos interessa são as drogas psicoativas, psicotrópicas, isto é, com efeitos psíquicos. Vejamos o que diz a mesma fonte sobre esse tema:

“Quanto à palavra psicotrópica, é composta de duas outras, psico e trópica. Psico significa nosso psiquismo (o que sentimos, fazemos e pensamos, enfim, o que cada um é). Já a palavra trópica relaciona-se com o termo tropismo, que significa ter “atração por”. Então psicotrópico significa atração pelo psiquismo e drogas psicotrópicas são aquelas que atuam sobre o nosso cérebro, alterando de alguma maneira o nosso psiquismo”.

Incluem-se nessa definição tanto drogas ilegais, como a cocaína e a maconha, quanto drogas legais de uso sujeito a prescrição médica, como antidepressivos e tranqüilizantes, e drogas legais de consumo livre, como tabaco, álcool e café.

As drogas psicotrópicas podem ser classificadas, de acordo com seu efeito no sistema nervoso central, em três tipos: depressoras, estimulantes e perturbadoras. As drogas “depressoras” são aquelas capazes de diminuir a atividade cerebral: álcool, tranqüilizantes, soníferos, opiáceos e solventes. As drogas “estimulantes”, inversamente, são capazes de aumentar a atividade cerebral: cocaína, anfetaminas, café, tabaco (nicotina). Já as drogas “perturbadoras” são aquelas que alteram o padrão de funcionamento do cérebro, perturbando sua atividade normal e apresentam potencial para produzir alucinações: mescalina, maconha, ácido lisérgico, ecstasy, entre outras.

Note que os critérios usados nessas classificações, a princípio, não representam, sozinhas, motivo para recomendar ou condenar nenhuma droga específica. Por esse motivo, uma classificação muito utilizada é a da FDA (Food and Drug Administration – agência do governo dos EUA responsável pela avaliação e fiscalização de alimentos e drogas), que relaciona o potencial de uso nocivo de uma droga psicotrópica à sua utilidade clínica. Vale a pena reproduzi-la integralmente aqui:

Classe I: Nenhuma utilidade clínica e alto potencial de abuso e dependência: heroína, alucinógenos (LSD, mescalina); maconha.

Classe II: Baixa utilidade clínica e alto potencial de abuso e dependência: ópio ou morfina: codeína; opiáceos sintéticos; barbitúricos; anfetaminas e seus derivados; cocaína e fenciclidina.

Classe III: Alguma utilidade clínica e potencial moderado de abuso e dependência: paracetamol e codeína combinada; esteróides anabolizantes.

Classe IV: Grande utilidade clínica e potencial baixo de abuso e dependência: benzodiazepínicos; fenobarbital

Classe V: Grande utilidade clínica e potencial muito baixo de abuso e dependência: Misturas de narcóticos e atropina e misturas diluídas de codeína.

Vemos que, pela classificação da FDA, as drogas tranqüilizantes mais empregadas, da classe dos benzodiazepínicos, são consideradas como de “baixo potencial de abuso e dependência”. Vamos começar as percorrer as curvas do labirinto, uma de cada vez.

O que significa “abuso” e “dependência” de drogas?

“Abuso” é diferente de “dependência”. Abuso refere-se à má utilização de drogas psicoativas, provocando danos à saúde. Já a “dependência” refere-se a um conjunto de sintomas (síndrome) relacionados à suspensão do uso da droga. Ou seja, o usuário não consegue parar de consumir a droga sem sentir-se mal. Pelos critérios da OMS, incluem-se entre os critérios para diagnóstico de drogas psicoativas:

Intoxicação Aguda: condição transitória que aparece como conseqüência da administração de substâncias psicoativas.
Uso Nocivo: Abuso de drogas, isto é, uso que provoca danos à saúde.
Toxicomania: Estado de intoxicação periódica ou crônica, determinada pelo uso repetido de uma droga. A toxicomania caracteriza-se por desejo irresistível de usar a droga (fissura), tendência a aumentar a dose e dependência psicológica.

“Uma característica central da síndrome da dependência é o desejo de consumir drogas psicoativas, as quais podem ou não ter sido prescritas por médicos”.

O quarto do Minotauro: mas, afinal, tranqüilizantes “viciam” ou não?

Segundo Bernik, Braun e Corregiari, o receio de que os tranqüilizantes e antidepressivos provoquem dependência está relacionado a vários fatores: confusão resultante de não compreender a diferença entre remédios com ação sobre o sistema nervoso central e o que chamam de “drogas de abuso”, aquelas que, pela classificação da FDA, têm pouca ou nenhuma utilidade clínica:

“De uma maneira bem simples a capacidade de uma substância que age sobre o cérebro causar dependência, ou viciar, é ligada a esta capacidade da causar euforia ou outra sensação extremamente agradável logo após o seu uso. Tal efeito reforça o desejo de consumo e leva à dependência. Muitas pessoas acreditam que todas as medicações de uso psiquiátrico (psicotrópicas) podem ter esse resultado. A crença é corroborada por alguns profissionais não-médicos, como psicólogos, ou não-psiquiatras, como clínicos gerais, que afirmam ao paciente que ele pode estar ‘dependente’ do medicamento. Entretanto, nem todos os medicamentos que agem no cérebro têm este poder de causar dependência”.

Para esses autores, não se deve confundir um eventual mal-estar relacionado à suspensão de medicamentos como antidepressivos e tranqüilizantes, o que eles chamam de “síndrome de descontinuação”, com “síndrome de dependência”. Primeiro, porque a síndrome de descontinuação pode ser facilmente contornada com a redução gradativa da dose do medicamento. Em segundo lugar, porque a suspensão de uma droga pode resultar no retorno dos sintomas em doenças crônicas, caso que deve ser enfrentado com o retorno ao uso da medicação, não estando relacionado, entretanto, à dependência pela substância propriamente dita. A síndrome de dependência ocorre, segundo os autores, quando o comportamento do usuário passa a girar em torno de como conseguir e consumir a droga, deixando lado todos os outros aspectos da vida.

Na categoria dos tranqüilizantes, os próprios autores reconhecem que a questão da dependência deve ser debatida com mais cuidado. Para começar, é preciso entender que o termo “tranqüilizante” é uma denominação popular para toda uma classe de substâncias que atuam sobre a ansiedade. Nessa categoria, incluem-se uma variedade de ervas empregadas com esse objetivo desde a Antigüidade, o álcool, os barbitúricos, os benzodiazepínicos e, mais recentemente, ansiolíticos não benzodiazepínicos, como a buspirona.

Os barbitúricos, principalmente os de ação curta, são os que mais podem causar dependência. Na década de 1950, embora os barbitúricos fossem ainda amplamente utilizados, era reconhecida a sua capacidade de induzir tolerância e de causar dependência com o aparecimento de uma síndrome de abstinência tão intensa quanto a do álcool. Outra preocupação era o grande risco de morte por envenenamento (overdose, superdosagem).

Entretanto, os barbitúricos não são mais usados como ansiolíticos ou hipnóticos. Desde o início dos anos 1960, foram substituídos pelos benzodiazepínicos, cujos principais benefícios seriam o menor risco de dependência e menor risco de morte nos casos de envenenamento.

Para os benzodiazepínicos, aplicar-se-ia a mesma lógica: na maior parte dos casos, não se trata de uma “síndrome de abstinência” propriamente dita, mas de uma “síndrome de descontinuação”:

“Pacientes com transtornos de ansiedade também podem sofrer recorrência de sintomas ao interromper, mesmo que de forma gradual, o uso de um benzodiazepínico. Muitos retomam a utilização do medicamento. No entanto… não se trata de um remédio que causou dependência, mas sim de um transtorno que não foi curado”.

Bernik reconhece que os benzodiazepínicos, se interrompidos abruptamente, podem causar uma síndrome de abstinência, que inclui até o risco de convulsões. Segundo o autor, “isto caracteriza uma dependência fisiológica ou ‘física’ ao benzodiazepínico. Entretanto mesmo nestas situações, são raras situações de abuso e este problema não pode ser confundido com uma ’síndrome de dependência química’”.

Mas segundo a visão do Dr. Dartiu Xavier da Silveira, Coordenador do PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) no Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/EPM, o problema não parece tão simples assim:

“O primeiro grande desafio ao lidarmos com farmacodependências começa na própria caracterização do fenômeno. A especificidade da farmacodependência consiste na inexistência de uma especificidade estrutural do dependente de fármacos. Por mais que a nosografia psiquiátrica insista em categorizá-la como uma entidade nosológica autônoma, a clínica da farmacodependência não consegue reconhecer nada mais sistematizável do que uma conduta toxicomaníaca. Assim, em princípio, não podemos falar em ‘doença’, mas apenas em ‘conduta’. De uma forma geral, estão incluídas em uma mesma terminologia realidades individuais extremamente diversas”.

Entretanto, o fator-chave, comum a todos os casos de dependência, consistiria, segundo o autor, não no desejo de consumir drogas, mas na impossibilidade de não consumi-las: “Para o dependente, a droga é uma questão de sobrevivência”.

O próprio Dr. Bernik, em sua Tese de Livre-Docência apresentada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, realizou um estudo cuja conclusão leva direto ao quarto do Minotauro: “Em vista dos resultados deste estudo, a presumida inocuidade do uso a longo prazo de tranqüilizantes benzodiazepínicos como droga de manutenção é, ao menos, questionável. Assim, particular atenção deve ser dada quando do tratamento de moléstias psiquiátricas crônicas, como os transtornos de ansiedade, para os quais doses altas de benzodiazepínicos são atualmente recomendadas. Em face da grande demanda da população por drogas ansiolíticas, a busca de alternativas farmacológicas e não farmacológicas de tratamento deve ser valorizada”.

Outro estudo que apresenta fatos tão interessantes quanto tantalizantes sobre o uso prolongado de benzodiazepínicos é a monografia de Ronaldo Laranjeira, intitulada “Dependência de benzodiazepínicos”:

“Os indivíduos que abusam de benzodiazepínicos, geralmente o fazem para lidar com as reações, por exemplo, ao estresse devido ao luto, desemprego, etc. Com a expectativa de que tais medicações podem ajudá-los a resolver os seus próprios problemas, ou então, simplesmente buscam os seus efeitos agradáveis, tais como a euforia, a excitação e o aumento do estado motivacional para a realização de suas atividades cotidianas. Quando os pacientes adquirem tolerância a algum desses efeitos tendem a procurar um médico com o objetivo de persuadi-lo a prescrever um benzodiazepínico, ou então, compram de forma ilegal a medicação… Uma característica importante dos usuários abusivos de benzodiazepínicos é o comportamento de procurar a droga. Para adquirir a medicação controlada, o paciente emprega várias estratégias ou artifícios e quando procura um médico pressiona-o a prescrever o medicamento sem uma indicação clínica, tornando a relação médico-paciente tensa e desagradável”.

Entre as estratégias empregadas pelos usuários crônicos de benzodiazepínicos, Laranjeira cita adulteração e falsificação de receitas médicas, queixas vagas e indefinidas que induzam o médico à prescrição, supervalorização dos sintomas, insistência na eficácia exclusiva do medicamento para aliviar os sintomas, recusa de indicação de outros medicamentos, afirmação de alta tolerância ao medicamento (implicando uma suposta necessidade de dosagens maiores), ameaças veladas, bajulação e elogios antes ou após conseguir a receita médica, procurar dois ou mais médicos para obter um “estoque” de receitas e medicamentos controlados.

Ora, esse comportamento é claramente coincidente com os descritos como típicos de dependência. O paciente está, claramente, vivendo em função da obtenção de uma droga, buscando ativamente a droga, demonstrando sua “impossibilidade de não consumi-la”.

Assim, pergunto, do ponto de vista do paciente não-médico: faz diferença se o que você sofre é uma “síndrome de abstinência”, uma “síndrome de descontinuação”, uma “conduta toxicomaníaca”, um “transtorno que não foi curado” se, na prática, você não consegue viver sem a substância e se sente forçado a inventar estratégias de todo tipo para obter o medicamento?

Faz diferença para efeito do tratamento que você vai receber. Se você se deparar com um clínico que tenha preconceitos em relação ao uso de benzodiazepínicos, prepare-se para levar um sabão. Se você se deparar com um neurologista ou psiquiatra que minimize os possíveis efeitos de abuso e dependência de benzodiazepínicos, você poderá formar um estoque de medicamentos maior do que o da farmácia. No meio termo, você vai encontrar resistências e recomendações de bom-senso que procuram limitar o abuso de benzodiazepínicos, como as seguintes, de GJ Ballone:

“Esses medicamentos são utilizados nas mais variadas formas de ansiedade e, infelizmente, sua indicação não tem obedecido, desejavelmente, a determinadas regras. Não se tratam de poderosos medicamentos antineuróticos, antipsicóticos ou antiinsônia, como podem estar pensando muitos clínicos e pacientes. Eles são apenas ansiolíticos, ou seja, resolvem as crises de ansiedade aguda”.

Ou seja, benzodiazepínicos não removem a causa da ansiedade, seja qual for no caso específico. Proporcionam alívio dos sintomas, alívio esse que pode ser essencial, indispensável, em muitas situações. Mas não resolvem o problema principal, não “curam a doença”. Transformá-los em “muletas” para conseguir viver é arriscar-se a vivenciar situações, se não exatamente iguais do ponto de vista da definição acadêmica, pelo menos muito parecidas com as de um alcoólatra ou um dependente de drogas ilícitas – um “viciado”, se preferir esse termo. Existindo a possibilidade de usar outros meios para controlar a ansiedade, você deveria experimentá-los antes de exigir de seu médico uma caixinha de “coloridas pílulas de tranqüilidade”… Pois você pode estar, inadvertidamente, adquirindo uma caixinha-de-pandora repleta de ansiedade!

Bibliografia:

BALLONE GJ – Tratamento Medicamentoso da Ansiedade – in. PsiqWeb, Internet, disponível em revisto em 2003

________ – Ansiedade, in. PsiqWeb, Internet, disponível em revisto em 2002

BERNIK, Márcio Antonini. O que são tranqüilizantes? http://www.neurociencias.org.br/Display.php?Area=Textos&Texto=Tranquilizantes

____________________. O que são antidepressivos? http://www.neurociencias.org.br/Display.php?Area=Textos&Texto=Antidepressivos2

____________________. Ansioliticos. Tese de Livre-Docência, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1997
Orientadora: Eneida Baptistete Matarazzo. http://www.adroga.casadia.org/calmantes/benzodiazepinicos.htm

BERNIK, Márcio, BRAUN, Ivan Mário, CORREGIARI, Fábio. Antidepressivos e tranqüilizantes causam dependência? http://www.neurociencias.org.br/Display.php?Area=Textos&Texto=Antidepressivos.

LARANJEIRA, Ronaldo. Dependência de benzodiazepínicos. http://br.monografias.com/trabalhos/dependencia-benzodiazepinicos-sindrome-abstinencia/dependencia-benzodiazepinicos-sindrome-abstinencia.shtml

PORTAL UNIMEDS. http://www.unimeds.com.br/layouts/capa/tematico_drogas.asp?site=26&mat=2144

PSIQWEB. Ansiolíticos e tranqüilizantes. http://www.psiqweb.med.br/farmaco/ansiol.html e http://www.psiqweb.med.br/farmaco/ansiol2.html

________. Tratamentos medicamentosos. http://www.psiqweb.med.br/trats/trats.html

SILVEIRA, Dartiu Xavier. Problemas Atuais na Abordagem Terapêutica das Farmacodependências. http://www.adroga.casadia.org/news/abordagens_terapeuticas.htm

Livros recomendados:

Transtornos de ansiedade

Sobre a ansiedade

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