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Corporalidade: o ser humano e a linguagem do corpo

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Géssica Hellmann
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Corporalidade e Arte – Os Cabelos e seus Significados – Entrevista com Luana de Oliveira

March 26th, 2011 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Corporalidade e Arte
Luana de Oliveira - Fonoaudióloga, Atriz e Gerente de Salão de Beleza

Luana de Oliveira - Fonoaudióloga, Atriz e Gerente de Salão de Beleza

Fim de tarde, hora de fechamento do salão de beleza. Horário ideal para uma reflexão sobre os significados da arte de produzir beleza no corpo das mulheres, mais especificamente, na cabeça: o corte cabelo e seus significados. No papo com Luana de Oliveira, fonoaudióloga, atriz e gerente de um salão de beleza, com aparência deslumbrante e simpatia sem igual em pleno final de um dia cansativo, conversamos sobre diversos aspectos antropológicos e psicológicos do trabalho naquele que, talvez, seja um dos mais antigos e tradicionais templos da transformação do projeto corporal feminino, em que a busca de uma nova imagem para o ego se ergue em refinada categoria de arte e corporalidade.

Logo no primeiro minuto do bate-papo, fomos interrompidos por uma cliente tardia, algo hesitante, em busca de informações sobre um produto específico. Começamos a conversa a partir desse “estudo-de-caso”. Perguntei a Luana o que exatamente procurava a cliente, a começar pelo produto.

Luana: O produto que ela veio procurar é a “escova de maracujá”, um produto que está na moda, uma verdadeira febre no Rio de Janeiro, junto com a escova de chocolate. É um tratamento profundo, que sela as cutículas e retira a porosidade dos cabelos, deixando-os mais maleáveis. Dependendo do tipo de cabelo, o volume pode até diminuir. É preciso repetir mensalmente, pois é realmente um tratamento. Enfim, entrou na moda o conceito de que bonito é o cabelo liso e a mulherada está toda procurando alisar o cabelo.

Alexis: Mas vejo que vocês fazem “permanente” também!

Luana: Fazemos, mas é um serviço muito menos procurado, mais freqüentemente por senhoras de mais idade. As mulheres mais jovens estão preferindo alisar.

Alexis: E a que você atribui essa moda?

Luana: Olha, é uma questão de acompanhar o movimento coletivo. São atrizes, programas de TV comentando o uso do produto… E aí, a procura aumenta muito. A gente tem que ficar muito antenado com os modismos e tendências para disponibilizar os produtos no salão assim que as clientes começarem a procurá-los.

Alexis: Agora, em termos gerais, o que as clientes procuram em salão de beleza, independentemente do serviço ou do produto que vão comprar?

Luana: Certamente, é uma satisfação psicológica. Abordando a questão do ponto-de-vista do teatro, noto toda uma representação de um papel. Por exemplo, muitas mulheres chegam aqui, mesmo as de classes mais altas, reclamando de falta de dinheiro… Outras vêm ao salão chorando porque perderam o namorado… Não vejo como uma mera questão de estética, algo que se limite a “deixar as unhas mais bonitas”, no caso da manicure, por exemplo. Relaciona-se mais a uma busca pela melhoria da auto-estima e eu noto isso pela postura corporal com que elas entram aqui, com os ombros encurvados, e a postura com que elas saem, mais empinadas, eretas, o peito erguido, a cabeça erguida e um sorriso no rosto.

Alexis: E sobre o bate-papo que rola durante o processo?

Luana: Em geral, fala-se sempre sobre as mesmas coisas (risos)… Mas a gente tem como política aqui evitar discussões sobre temas polêmicos, que possam tumultuar o ambiente. Porque há pessoas que sabem conversar sobre um tema respeitando os diversos pontos-de-vista. Mas há outras pessoas que se irritam e querem convencer as outras de que estão certas. Então, eu fico procuro ficar ligada na reação das clientes e sinalizo para os funcionários que mudem o rumo da conversa.

Alexis: Você pode contar um caso?

Luana: Tivemos uma funcionária que era fanática religiosa e queria converter as clientes. Então, não sei nem dizer como ela conseguia isso, mas a partir de qualquer assunto, ela conseguia chegar na igreja e começava o tumulto. Essa funcionária não conseguia se controlar e magoou muitas clientes durante o período em que esteve aqui. Por exemplo, ela expressava de forma muito preconceituosa. Com essas posições extremistas, radicais, preconceituosas, não é possível manter um clima agradável entre os funcionários e, principalmente, com as clientes, para que elas se sintam bem e queiram voltar ao salão.

Alexis: E como é que se produz esse clima agradável?

Luana: A palavra mais usada pelas clientes é “energia”, eles dizem que aqui tem uma “energia positiva”. Olha, não é que todos os dias a gente esteja se sentindo bem e com alto astral, isso não é possível, há sempre aquele dia em que alguma coisa incomoda, algo de ruim acontece, enfim, você não está se sentindo bem. Mas eu procuro abstrair, porque o cliente não precisa saber que eu tenho um problema, então atendo sorrindo, procurando ser o mais atenciosa possível e transmito essa atitude para os funcionários. Eles têm abertura para desabafar algum problema comigo mas, quando chega a cliente, vamos vestir o sorriso.

Alexis: Por outro lado, as clientes costumam se abrir com vocês, como se fossem psicólogos, não?

Luana: É verdade. Há clientes que vêm para cá para realmente se abrir com a gente, conversam sobre os problemas, expõem sua vida sem vergonha nenhuma, falam sobre tudo. Observo que isso é mais freqüente com as manicures. Quando a gente percebe que elas estão falando baixinho, para não serem ouvidas mesmo, já imaginamos que está rolando um desabafo. Por incrível que pareça, aqui, a gente conseguiu abolir a fofoca. Já teve, mas fizemos um trabalho de conscientização e o clima está bem diferente. Realmente, o que a cliente conta ali para a manicure ninguém fica sabendo depois.

Alexis: Então, com a manicure, há uma relação mais próxima, de “pé-de-ouvido”, até pela proximidade física em que acontece o trabalho.

Luana: Exatamente. Também há uma intimidade maior por ocorrer um toque de pele com pele, há uma troca de energias naquele momento e a mulher sente como se aquele toque delicado fosse uma carícia e isso favorece a aproximação.

Alexis: E sobre a amizade entre clientes? Isso costuma acontecer?

Luana: Ultimamente, tem acontecido com menos freqüência. Já aconteceu muito de duas clientes se conhecerem e passarem até a combinar para se encontrar aqui no mesmo horário e, quando calhava de uma delas não aparecer, até cobravam da gente: “Onde está aquela senhora que vem sempre no mesmo horário que eu”? E pedem que a gente mande beijos, abraços, quando a virmos em outro horário. E quando a gente passa o recado, a outra fica toda animada.

Alexis: E sobre o significado do tratamento? Por exemplo, você disse que as mulheres com cabelo ondulado, hoje, estão procurando alisá-los. O que exatamente elas estão procurando?

Luana: Elas dizem que querem “mudar a cara”. Dizem que estão cansadas do cabelos, que estão sempre com a mesma cara e querem mudar. Há clientes que perguntam se o resultado é para a vida inteira. Eu digo que não, o cabelo vai crescer e vai voltar ao que a genética determinou para a raiz do seu cabelo. Algumas declaram que vão procurar emprego e que querem estar mais bonitas, outras alegam que o cabelo ondulado não é adequado para certas ocasiões.

Alexis: Se a gente pensar bem, essa expressão “mudar de cara”, apesar de ser um clichê com o qual a gente está tão acostumado que nem nota, é muito interessante, porque expressa algum desejo mais profundo, né? Porque, se levarmos ao pé da letra, essa vontade de mudar de cara lembra aquele filme, “O Máskara”!

Luana: (risos) É, dizem que estão cansadas do cabelo, cansadas da própria “cara”.

Alexis: Eu noto que você tem aqui, como em todos os salões, referências visuais de cortes de cabelo e maquiagem: pôsteres, revistas… Elas pedem cortes “iguaizinhos” ao da revista?

Luana: Normalmente, os cortes mais pedidos são os que estão em moda na televisão. Quando tem uma novela que “estoura” em interesse e há uma atriz que tem um corte mais diferente, elas correm aqui para pedir o corte “daquela atriz da novela tal”, principalmente da Rede Globo. Nunca me pediram um corte de uma novela de outra emissora…

Alexis: Pois é, aí eu te pergunto: tecnicamente, é impossível reproduzir o mesmo corte de cabelo, cada cabelo é diferente do outro…

Luana: E cada rosto é um rosto diferente.

Alexis: Então, é realmente impossível que um corte fique “igualzinho” ao da revista ou da novela…

Luana: É uma situação delicada e há clientes que ficam aborrecidas quando a gente diz, por exemplo, que “esse corte não combina com seu rosto”. Nesse caso, a gente tem que explicar detalhadamente o motivo, mostrar outros cortes que seriam melhores para o rosto dela. Porque é como se o rosto fosse pintura e o cabelo fosse a moldura. Também há algumas clientes que pedem coisas que são tecnicamente impossíveis, como um relaxamento de cachos por exemplo, mas já tendo usado recentemente outra química no cabelo. Isso não pode, vai estragar o cabelo da pessoa, a gente explica que o cabelo pode até cair, dependendo do caso. Nesses casos, quando a cliente insiste, nós somos taxativos: aqui a gente não faz de jeito nenhum. Então, elas ficam aborrecidas, saem daqui pisando duro, mas é melhor do que a gente estragar o cabelo da pessoa.

Alexis: Bom, mas e quando é possível fazer? O fato de que não vai ficar idêntico não causa frustração? Como lidar com isso?

Luana: É preciso reparar muito na cliente. Se é um tipo muito exigente, que quer daquele jeitinho que aparece na foto ou na novela nos mínimos detalhes, a gente tem que explicar para ela que o resultado não vai ser exatamente o que ela espera. Por exemplo, vou ter que explicar que, como o cabelo dela é volumoso e o da modelo ou atriz é mais ralo, o resultado vai ficar diferente. A gente precisa ter muito cuidado e explicar cada detalhe, para não frustrar a cliente e para que, no final, ela fique satisfeita com o resultado.

Alexis: Bom, quando uma cliente expressa o desejo de ter um corte “igualzinho” ao de uma atriz de novela, certamente é porque ela ter alguma coisa em comum com a atriz ou com o personagem que ela está representando e, de certa forma, ela quer expressar um significado como “eu também sou assim”. Essa expectativa sempre pode envolver um certo grau de frustração e você procurar lidar com isso didaticamente.

Luana: É. Até hoje, nunca vi uma cliente com esse perfil sair daqui triste com o resultado. Porque se a gente explica detalhadamente porque e como vai ficar, até a cliente mais perfeccionista vai entendendo o trabalho do profissional, quais são os limites do que pode ser feito e acaba gostando do resultado. Mexer com o cabelo é um trabalho muito sério, muito mais difícil do que as unhas, por exemplo. Não que a manicure não mexa com a auto-estima mas, se você errar no corte do cabelo, a pessoa vai ficar com MUITA raiva.

Alexis: Desenvolve um pouquinho essa entidade mítica, o Cabelo…

Luana: (risos) É uma ligação afetiva muito séria. Pode não parecer, mas os homens são tão ou mais exigentes quanto as mulheres. Ficam preocupados com a nuca, a altura das costeletas, olham e avaliam muito… Acho difícil falar sobre esse assunto…

Alexis: Ok, então fale um pouco da sua relação com os seus cabelos.

Luana: Ah, depois de passar tanto tempo aqui dentro, eu até me desliguei um pouco. Claro que eu cuido; fiz uma escova para alisar neste fim de semana, meu cabelo é todo cacheadinho, todo mundo prefere ele cacheado e eu também. Cabelo cacheado dá um ar mais inocente, mais “menininha”. Já o cabelo escovado tem um estilo mais “mulherão”.

Alexis: Então, mesmo gostando dos cabelos cacheado, você também resolveu “mudar de cara”?

Luana: (risos): É neste fim-de-semana deu vontade de fazer uma escova e pedi para minha mãe fazer para mim. De vez em quando faz bem…

Alexis: Essa decisão de “mudar de cara” mudando o corte é impulsiva?

Luana: Pessoalmente, olha, minha mãe trabalha neste ramo há mais de trinta anos… E eu não gosto de que fiquem mexendo no meu cabelo. Não gosto de mudar o corte, não gosto que digam que vão tirar meus cachinhos para fazer escova progressiva. E, sinceramente, quando alguém vai mudar o corte de cabelo tem que pensar muito antes de fazer. Por exemplo, uma “escova definitiva”, que é diferente da “escova progressiva”: a escova progressiva alisa por etapas o cabelo, já a escova definitiva alisa de uma vez só. Então, é uma decisão que a cliente tem que querer mesmo. Quando ela chega aqui e diz “eu quero uma definitiva”, nós perguntamos várias vezes se ela têm certeza de que é exatamente isso que ela quer. Explicamos que os cachinhos “vão embora de vez”, não adianta chorar nem voltar aqui pedindo de volta os cachinhos de seu cabelo porque não vai ser possível. O mesmo vale para mudanças radicais no corte. Porque o corte de cabelo modifica muito o rosto da pessoa e, se mudar demais, pode causar um choque.

Alexis: E sobre o lado artístico propriamente dito? Gostei muito da comparação dos cabelos com a moldura. Você falar sobre o lado técnico da estética, de composição do rosto com o corte, enfim, o que se leva em conta para produzir beleza, independemente de moda?

Luana: Olha, a gente precisa observar o conjunto. Por exemplo, às vezes entra uma cliente mais tímida, recatada, pedindo um corte radical. A gente explica que o corte que ela está pedindo não combina com a personalidade e que ela não vai gostar disso depois e procuramos mostrar um corte que realmente tenha a ver com a pessoa. Há mulheres que têm uma vida muito agitada e vão precisar de um corte mais prático, que ela não precise gastar muito tempo penteando cada parte do cabelo. Se o profissional trabalhar observando a personalidade da cliente, ele a conquista. Se não reparar nisso, perde a cliente na hora.

Corporalidade e Arte – Parte II – Pintura Corporal e Facial

March 26th, 2011 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Corporalidade e Arte
Neste artigo trataremos sobre a arte da pintura corporal, iniciando com um breve histórico e por fim apresentando o trabalho do artista brasileiro Beto França e o maravilhoso realizado pela artista, designer e fotógrafa irariana residente em Londres, Parima Shahin Moghaddam no rosto de crianças.

Beto França - Pintura Facial e Corporal - Arte Corporalidade

Beto França - Pintura Facial e Corporal

O corpo e a pele como suporte para a arte já era usada pelos homens de Neanderthal, antes mesmo de pintarem as paredes das cavernas onde viviam. Pintavam-se para as cerimônias de fertilidades, guerras e motivos fúnebres.

Segundo Pinto (2007) as egípcias já pintavam os cabelos e a pele para ficarem mais bonitas usando óleos vegetais e tinturas naturais.

O autor afirma que nas sociedades indígenas brasileiras, até hoje, “a pintura corporal tem grande importância e seu significado é muito amplo, podendo ir da simples expressão de beleza e erotismo à indicação de preparação para a guerra, ou, até mesmo, como uma das formas de aplacar a ira dos demônios. Além de protegerem o corpo dos raios solares e das picadas de insetos, a ornamentação corporal é como se fosse uma segunda ‘pele’ do indivíduo: uma pele social em substituição à biológica. O padrão da pintura e o local de sua localização no corpo revela o ‘status’ de seu detentor na sociedade”.

A pintura corporal é a união das artes visuais com o corpo humano, é a arte que utiliza como suporte o corpo e a pele. Esta arte é bem difundida na Europa, mas ainda pouco conhecida e valorizada no Brasil.

“A pintura corporal deriva, segundo Beto França, dos efeitos plásticos obtidos com elementos visuais como linha, forma, cor, volume e textura, assim como dos princípios de organização, composição, equilíbrio, harmonia, ritmo e movimento. Além disso, segundo ele, o domínio da técnica do desenho é uma das ferramentas fundamentais para a execução desse trabalho” (Pintura, 2007).

Esta arte é efêmera, o artista leva algumas horas para realizar e o efeito é fantástico. Mas é necessário o recurso fotográfico para eternizar o registro desta arte.

No Brasil, a pintura corporal tem sido utilizada principalmente em eventos como feiras e exposições e, princiapalmente, no carnaval. As tintas especiais são todas importadas, o que dificulta um pouco a divulgação desta arte.

Mais do que falar sobre ela é preciso apreciá-la. Veja abaixo alguns trabalhos realizados pela fotógrafa Parima nas ruas em Londres. A delicadeza com que a artista faz seu trabalho, bem como a alegria e expectativa expressa nos rostos das crianças faz do próprio processo de produzir a pintura um evento artístico, tanto quanto o resultado final.

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças - Arte Corporalidade

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças

 

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças - Arte Corporalidade

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças - Arte Corporalidade

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças

 

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças - Arte Corporalidade

Parima Shahin Moghaddam - Pintura Facial em Crianças

 

Referência:

Pinto, Ângelo C. Corantes Naturais e Culturas Indígenas. Disponível em: http://www.sbq.org.br/PN-NET/causo9.htm Acessado em: 19/01/2007.

Pintura corporal, a arte em natureza viva. Disponível em:  http://www.mundocor.com.br/arteseartistas/pintura_corporal.htm. Acessado em: 18/01/2007.

Corporalidade e Arte – Parte I – A Moda como Linguagem

March 26th, 2011 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Corporalidade e Arte
Este é o primeiro artigo de uma série sobre arte e corporalidade, em que abordaremos múlitplas formas de uso do corpo como suporte para expressão artística e individual.

Pamela Moore Dionne - Tatoo - corporalidade

Tatto - por Pamela Moore Dionne

 

Vale abrir este estudo com uma “pérola” historicamente documentada da expressão da perplexidade masculina diante de uma das mais antigas formas de arte corporal, a maquiagem, em carta publicada no jornal britânico The Spectator em 1711 ( Fonte: http://www.spnetshop.com.br/vcsabia_hmaquiagem.htm).

“Senhor, estou pensando em largar minha mulher e acredito que quando o senhor considerar o meu caso, a sua opinião será a de que minhas pretensões ao divórcio são justas. Nunca um homem foi tão apaixonado como eu pela sua fronte, pescoço e braços alvos, assim como a cor azeviche (N.E.: extremamente negros) de seus cabelos. Mas para meu espanto descobri que era tudo feito de arte: sua pele é tão opaca com esta prática, que quando acordou de manhã, mal parecia jovem o suficiente para ser mãe de quem levei para a cama na noite anterior. Tomarei a liberdade de deixá-la na primeira oportunidade, a menos que seu pai torne sua fortuna apropriada às suas verdadeiras, e não supostas, feições…”.

O decepcionado senhor britânico do século XVIII usa a palavra correta para descrever o ato de maquilar-se: arte. Arte no corpo, a corporalidade como suporte para auto-expressão, formação de identidade, diferenciação, identificação com um grupo, enfim, como mensagem.

Ressaltemos de início que o processo comunicativo vai além das palavras e do clássico esquema Emissor |> Codificação |> Mensagem |> Canal |> Decodificação |> Receptor.

Uma das preocupações da pesquisa contemporânea em comunicação reside justamente nos aspectos ocultos da linguagem, aqueles que são culturalmente inscritos nos movimentos e posturas corporais, sejam eles inconscientes ou cuidadosamente planejados. Ganha cada vez mais relevância a pesquisa das chamadas paralinguagens, isto é, as linguagens não-verbais: cinética – gestos, posturas e movimentos; tonalidades e características da voz; proxemia – estudo do significado das distâncias entre os corpos durante o processo de comunicação; e o próprio uso como do corpo como mídia, isto é, meio de transmissão da mensagem: maquiagem, tatuagem, vestuário, etc. (O’Neil, 2005)

Neste série de artigos, introduziremos alguns conceitos deste último campo de pesquisa em sua relação com as formas de arte corporal.

A SEMIÓTICA DA MODA

A moda pode ser considerada como um processo de comunicação, de manifestação simbólica. As roupas podem criar identidades, externar códigos e transmitir mensagens. Varia nas diferentes culturas o significado e a simbologia das roupas. Elas serve para distinguir a classe social de quem a usa, representando o indivíduo dentro da sociedade, sendo uma forma de distinguir o grupo a qual pertence.

O vestuário participa da constituição da identidade individual, proporcionando a criação de um estilo próprio, uma representação de si mesmo na sociedade e no grupo em que convive. O indivíduo pode ser autônomo na decisão quanto a seu modo de vestir, embora não possa isentar-se de influências externas. (SOUZA, 2003).

Diariamente, o ser humano é bombardeado por códigos, mensagens – informações -sejam elas sonoras, verbais, visuais e do próprio vestuário. A moda e o vestuário criam códigos que transmitem e recebem mensagens, imperam na comunicação da sociedade atual. O vestuário deve ser entendido como um veículo ideológico, através do qual se estabelece uma identidade individual e expectativas de comportamentos sociais.

Segundo Monteiro (2003:1), “Quando o consumidor decide comprar a roupa, ele não está comprando apenas alguns pedaços de panos bem costurados. Ele está comprando sua própria alma”.

“Estilo” é o que faz a pessoa se sentir única e dizer ao mundo “sou singular”. A pessoa que se veste com um determinado estilo está mostrando muito mais do que uma maneira de vestir, está mostrando o seu modo de ser, viver e de agir. Estilo é muito mais do que moda ou modismos, é uma escolha pessoal e particular, uma preferência, uma expressão de desejos, fantasias e humores. A moda é passageira, é a oferta atual da indústria da moda em um determinado momento, mas o estilo é permanente.

Ao comprar uma peça de roupa, o consumidor busca a diferenciação e a mensagem que pode transmitir através dela. Ela representa um traço de individualidade, uma forma de se diferenciar das outras pessoas em função do que está usando.

Monteiro (2003) afirma que as roupas são consumidas por questões além de sua utilidade, com significados simbólicos de gosto, estilo de vida e identidade. No decorrer da história da moda, verificou-se que ela se comporta como um código em um processo de metalinguagem. A roupa é um código de linguagem mesmo quando não é usada para combinar, se usada de forma displicente, essa forma informa a displicência de quem a usa. Usar ou não uma camisa indica um estado de espírito, pois estar sem camisa indica um despojamento material, uma solidão moral; já dar a sua própria camisa significa generosidade sem limites, é partilhar sua intimidade. Já o material de que é feita uma camisa demonstra a classe social e o grupo a que se pertence.

Na opinião de Aragão (2003), a roupa é uma extensão muito íntima do corpo, exercendo a função de interface e representação do indivíduo, atiçando os todos os sentidos humanos, em especial a visão. A moda pode tornar-se sinônimo de provocação, escândalo ou surpresa no seu uso cotidiano.

Partindo do princípio que cada indivíduo é único, a criação do estilo próprio é uma escolha, um eleger de alguns itens dispensando-se outros dentro da tão variada oferta de moda. Selecionar, separar, organizar, até decidir o que combina com seus traços, é uma escolha proposital, precisa, de forma consciente e coerente. Através da escolha do estilo do vestuário, pode-se saber a que “tribo” pertence a pessoa, sua identidade social e modo como ela deseja ser tratada.

A roupa é uma forma de linguagem, faz parte da necessidade de ver e ser visto. Ela fornece uma insinuação visual para a cultura da classe social do usuário. É importante salientar que a compra de uma peça do vestuário é na verdade um ato complexo e cheio de significações.

Para Pitombo (2003), a moda, enquanto manifestação simbólica, refere-se ao significado sugerido pela indumentária, sendo que a noção do que realmente a roupa revela é muito singular em relação àquele que a veste. Ou seja, em muitas situações, a indumentária, ao invés de tornar transparente, esconde e camufla, criando muitas vezes uma falsificação do eu, não se deixando ver que se realmente é, mas o que se gostaria de ser, como no caso mencionado no início deste artigo.

Por exemplo, uma mesma mulher, pela manhã, por ser vista vestida ao estilo executivo ao caminho do trabalho; no fim da tarde, vestindo-se em estilo active wear para ir à academia e, a noite, em estilo clubber para ir à boate. As pessoas escolhem as roupas para transmitir uma mensagem; em um mesmo dia a mesma pessoa pode usar vários estilos, adequando-se ao grupo com qual vai se relacionar, ou até, à mensagem ou impacto que deseja transmitr ou provocar.

Atualmente a moda é um reflexo do fim das identidades fixas. Como pode se perceber no exemplo, o indivíduo pode participar de vários grupos ou “tribos” através da escolha pessoal do que vai vestir e do que quer transmitir.

Mendonça (2003), afirma que a moda é a comunicação do século XXI, pois estipula os horários e os estilos dos programas a serem transmitidos pelos veículos de comunicação de massa, especialmente a televisão; dita o visual dos apresentadores e cria todo um clima de “sedução da moda”, ou seja, dita a moda e seduz os consumidores. Neste ambiente de sedução, através da comunicação de massa, vendem-se sonhos e criam-se costumes que, em pouco tempo, tornam-se necessidade de todos.

Outros aspectos interessantes para análise referem-se à moda e seu contexto simbólico: o modo como as griffes vendem a moda como um sonho de consumo, a venda de um ideal imaginário, as telenovelas e as suas influências na moda popular.

Bérgamo (1998) escreve que a característica principal da disposição das peças do vestuário nas vitrines dos shoppings-centers é a composição de conjuntos. Dependendo da promoção da loja, uma saia pode vir acompanhada de um cinto ou um sapato: a imagem de uma vitrine é sempre a composição de um conjunto e nunca simplesmente de uma única peça.

As lojas dos shoppings vendem peças que podem formar conjuntos, não necessariamente da mesma marca, com a idéia principal de vender um estilo. As lojas de griffe, não colocam somente suas roupas à venda, elas tem o objetivo principal de vender um ideal, um sonho de consumo, agregando valor à marca e, conseqüentemente, às roupas que vendem.

Em resumo, vemos que a moda representa uma das muitas formas em que arte e corporalidade combinam-se para formar um “projeto corporal” (Pérez, 2006) de alteração das formas naturais do corpo para transmitir mensagens. Certamente, a arte a que se referia o noivo decepcionado da história do início do artigo incluía, também, peças de vestuário cuidadosamente planejadas para produzir no corpo da noiva o efeito desejado. Nos próximos artigos desta série abordaremos essas outras formas de arte corporal.

Referências:

ARAGÃO, Mariana. Entrevistas. Disponível em: <http://www.santamoda.com.br/revista/entevista_AnaMerydeCarli.htm>. Acesso em: 17 fev. 2003.
BERGAMO, Alexandre. O campo da moda. 1998, v.41, p.137-184. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77011998000200005&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 0034-7701. Acesso em: 14 maio 2003.>
MENDONÇA, Flávia Vasconcelos de. Moda é a comunicação do século XXI. Disponível em: <http://www.dominiofeminino.com.br/moda/flavia_moda.htm>. Acesso em: 10 mar. 2003.
MONTEIRO, Gilson. A metalinguagem das roupas. Disponível em:
<http://bocc.ubi.pt/pag/monteiro-gilson-roupas.html>. Acesso em: 18 fev. 2003.
PITOMBO, Renata. A moda enquanto manifestação simbólica. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/sentido/moda.html>. Acesso em: 07 maio 2003.
SOUZA, Maria Luiza Feitoza de. Grupo de estudos de semiótica da moda. Disponível em: <http://www.pucsp.br/pos/cos/moda/resenha.htm>.Acesso em: 28 fev. 2003.

Tai Chi Chuan como Arte Marcial: Yin e Yang na corporalidade

March 26th, 2011 by Alexis Kauffmann | No Comments | Filed in Atividade Física, Corporalidade e Bem Estar
A perspectiva ocidental, predominamente dualista, tende a focalizar os extremos como se fossem opostos, inimigos, encontrando dificuldade em compreender a idéia de integração de forças complementares. Por motivos históricos extensamente desenvolvidos na revista Sexualidade, o homem Ocidental procede a uma separação artificial entre corpo e mente (ou “espírito”, “alma”) e esse dualismo se reflete diretamente na expressão de sua corporalidade. Mesmo a posição “neutra” ou de “centro”, expressa esse desequilíbrio, pois a posição “central” ao tomar os extremos como referência, torna-se apenas mais um extremo entre dois extremos!

Neste artigo, abordaremos a prática do Tai Chi Chuan no contexto da filosofia integrativa do Yin-Yang, demonstrando como é possível usar o corpo para integrar complementarmente o que fomos ensinados a entender como opostos.

Celeste Worl - swimming with the current of the tao - corporalidade

Celeste Worl - swimming with the current of the tao - corporalidade Swimming with the current of the Tao por Celeste Worl

 

Algumas artes marciais, embora fundamentem-se em uma forte base filosófica e, declaradamente, incluam a busca pelo “aperfeiçoamento do espírito humano” entre seus objetivos, enfatizam em sua prática apenas os aspectos técnicos, relativos à luta, ao combate propriamente dito. A prática de esmurrar e chutar sacos de areia; o incentivo a uma atitude excessivamente agressiva e competitiva mesmo durante os treinos com colegas de dojo; a crença de que tudo qualquer problema pode ser resolvido com o recurso á violência; uma arrogância disfarçada de auto-confiança; todos esses são efeitos colaterais do esvaziamento filosófico das artes marciais, reduzida a um conjunto de técnicas para machucar os outros.

Essas formas de arte marcial podem ser entendidas como expressões Yang da corporalidade sem o Yin correspondente. O praticante expõe-se a dores e lesões, desenvolve uma atitude mental nociva a si mesmo e aos que o rodeiam, compromete a própria saúde em seu sentido mais amplo.

Toda forma de arte marcial deve incluir a preservação da saúde entre seus objetivos.

Por outro lado, o Tai Chi Chuan, tal como praticado atualmente em muitas academias, praias, praças e eventos ao ar livre, como simples forma de ginástica despido de seu aspecto marcial, visando unicamente à promoção da saúde sem que o praticante entenda que aqueles movimentos também visam à auto-defesa, é um Tai Chi Chuan desequilibrado, excessivamente Yin, despido de seus aspectos Yang.

Toda forma de arte marcial deve incluir a conquista da auto-confiança pela capacidade de auto-defesa entre seus objetivos.

Talvez o leitor esteja surpreso com a referência ao Tai Chi Chuan como uma arte marcial. Isso acontece, como sugerimos no início, por uma compreensão defeituosa, extremista, dos conceitos de Yin e Yang.

“Ainda que suas manifestações sejam com freqüência bastante profundas, na sua forma mais simples o conceito de yin e yang está relacionado a dois aspectos que, embora sejam opostos, são também complementares em relação a tudo o que existe no universo, seja um simples objeto, um processo ou uma idéia”, afirma Wong Kiew Kit (2003: 25-26).

Assim, todas as coisas – conceitos, objetos, idéias, experiências – podem ser Yin ou Yang conforme o contexto em que são observadas, praticadas ou vivenciadas. Tomando um exemplo das artes marciais, um soco forte pode ser considerado Yang em comparação a um soco mais fraco e Yin quando comparado a um soco ainda mais forte.

Não se tratam, portanto de conceitos absolutos, mas relativos à idéia que se quer expressar.

Outro aspecto importante é que esses conceitos são complementares e integrados, um não existe sem o outro. Para que exista movimento é necessário que se siga um alongamento (Yin) após uma contração (Yang). Após um movimento, segue-se o relaxamento; após um esforço, segue-se um repouso. E só se pode iniciar um movimento a partir de uma posição de relaxamento, só se pode fazer um esforço a partir de uma posição de repouso. O Yin dá origem ao Yang e, em seguida, o Yang dá origem ao Yin.

Quando se atinge o Pólo Norte, todas as direções conduzem ao Sul, e vice-versa. Assim convivem o Yin e Yang: quando um deles atinge seu ápice, o outro surge necessariamente.

No Tai Chi, o Yin e o Yang complementam-se: a agressividade, no objetivo de auto-defesa; a busca da saúde, nos movimentos suaves e na prática gentil:

“Assim, em geral percebemos que os movimentos do Tai Chi são graciosos, delicados e bem diferentes dos movimentos do kung fu shaolin, por sua vez rápidos e potentes. Os alunos de Tai Chi Chuan normalmente fazem os movimentos de forma lenta, pois fica mais fácil desenvolver o fluxo interno de energia com movimentos lentos; entretanto, se os praticantes adquirem destreza na execução desses movimentos, estes podem, e devem, tornar-se mais rápidos e vigorosos, completando dessa maneira o ciclo harmonioso do yin (que é lento e delicado) e do yang (que é rápido e vigoroso)” (Kit, 2003: 27).

Mas o que é preciso para desenvolver essa energia interior? Kit, (2003) afirma que os mestres de artes marciais chinesas aconselham, antes de começar as técnicas, desenvolver a “força”. A forma mais básica é através do treinamento da postura.

Praticar somente os movimentos não é suficiente. Sem o fluxo interno de energia, ele degenera simplesmente em uma “dança elegante”. Corpo e mente devem estar sintonizados. Desempenhar perfeitamente as posturas do Tai Chi Chuan sem controlar a mente, canalizando a energia, faz com que obtenhamos resultados insuficientes, pois a sua prática, além de um exercício corporal e auto-defesa, tem a função de melhorar a saúde, aumentando a vitalidade e promover a longevidade.

Saúde, neste caso, é mais que simplesmente ausência de doenças clínicas. “Uma pessoa verdadeiramente saudável, deve dormir e comer bem, ser emocionalmente estável e mentalmente são, ter energia e entusiasmo para trabalhar e divertir-se e, de modo geral, ser capaz de fazer sexo com prazer”.(Kit, 2003:167).

Enquanto no Ocidente existe uma “indústria dos tratamentos de doenças”, que nos informa que não estamos saudáveis, logo, há algo de errado, para os chineses esse conceito se inverte: “Quando alguém está doente, pergunta-se apenas: por que esta pessoa não está bem?”. A definição chinesa de saúde, segundo o autor, é compreendida em termos de “Sistemas de Energia”, o Chi. “Todas as práticas médicas chinesas, incluindo fitoterapia, acumpuntura, massagem terapêutica, medicina externa, traumatologia e terapia do Chi Kung, voltam-se para o reequilibrio energético, de forma holística e dirgida à causa da origem da desarmonia energética.

Como a causa original das doenças seria o bloqueio energético do fluxo de energia, o remédio recomendado pela medicina chinesa é eliminar o bloqueio. Dentre as numerosas práticas terapêuticas, algumas citadas acima, “o chi kung é a mais direta e eficar para curar moléstias crônicas e aquelas cujas causas são de difícil defrinição, como hipertensão, reumatismo, depressão e câncer”. .(Kit, 2003:171).

Mas o que tudo isso tem ver com a prática do Tai Chi Chuan? Segundo o autor, a prática correta do Tai Chi Chuan é uma série completa do Chi Kung, embora mais significativo para promover a saúde do que para curar doenças.

Mas é claro que, se o Tai Chi for praticado somente como uma dança, sem a canalização interna da energia, só trará benefícios associados a uma dança: flexibilidade, elegância e diversão.

Tudo o que dissemos neste artigo sobre o Tai Chi Chuan aplica-se a todas as artes marciais. Praticar uma arte sem se aprofundar em sua filosofia é, no mínimo, subaproveitar seu potencial. É preciso superar a divisão artificial entre mente e corpo, entre movimento e pensamento, entre corporalidade e sentimento, fugindo ao ideal puramente mercantilista das “academias” ocidentais e perceber que há algo mais do que o pagamento de uma taxa de matrícula e mensalidades no caminho da harmonia entre o mundo exterior e sua vida interior.

Bibliografia

Kit, Wong Kiew. O Livro completo do Tai Chi Chuan. São Paulo: Pensamento, 2003. 2a ed.