Afinal, o que é ansiedade? É uma doença, um sintoma, transtorno passageiro ou “frescura”? Existe tratamento para ansiedade ou é algo com que se deve conviver? Deve-se tratá-la com “calmantes”, “tranqüilizantes”? A propósito, “tranqüilizantes” viciam? Caso provoquem dependência, então “tranqüilizantes” são “drogas pesadas”? Se você parar de tomar um “tranqüilizante”, vai ter “síndrome de abstinência”?
Na busca de respostas simples e diretas para essas perguntas o paciente mergulha em um labirinto de discussões, com mais polêmicas do que conclusões. A maior parte dessas discussões pode não fazer muita diferença para o paciente não-médico que esteja se sentindo ansioso por uma caixinha de “coloridas pílulas de tranqüilidade instantânea”… Mas, conforme a visão que o médico tenha do assunto, fará muita diferença no modo como ele será tratado nos consultórios, ambulatórios e emergências hospitalares. Por isso vale a pena agarrar-se à ponta de um fio de Ariadne e dar uma espiada nesse labirinto antes de mergulhar de cabeça vazia e mãos nua no reino do Minotauro Benzodiazepínico… Pois o caminho de volta pode ser difícil, complicado e, muitas vezes, o único caminho pode ser seguir em frente.

Crouched por Claus Heinecke
Na entrada do Labirinto: o que é Ansiedade?
A ansiedade é uma reação biológica natural do organismo a uma situação de desafio, que exija ação imediata – chamada de situação “estressora”. Desta forma, o organismo fica preparado para agir de modo a enfrentar, resolver e remover o problema de seu ambiente. Após enfrentar e resolver o problema ou ameaça, ou seja, removido o agente “estressor”, não há mais motivo para que o organismo mobilize tantos recursos e ele volta ao seu estado normal.
“Nosso potencial ansioso sempre se manteve fisiologicamente presente e sempre carregando consigo o sentimento do medo, sua sombra inseparável. É muito difícil dizer se era diferente o estresse (esta revolução orgânica e psíquica) que acometia o homem das cavernas diante de um urso invasor de sua morada daquilo que sente hoje um cidadão comum diante do assaltante que invade seu lar. Provavelmente não. Fazem parte da natureza humana certos sentimentos determinados pelo perigo, pela ameaça, pelo desconhecido e pela perspectiva de sofrimento” (Ballone, GJ, 2002).
O mesmo autor apresenta, mais adiante, uma descrição dos três níveis de manifestação da Ansiedade:
“A Ansiedade pode se manifestar em três níveis: neuroendócrino, visceral e de consciência. O nível neuroendócrino diz respeito aos efeitos da adrenalina, noradrenalina, glucagon, hormônio anti-diurético e cortisona. No plano visceral a Ansiedade corre por conta do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), o qual reage se excitando (sistema simpático) na reação de alarme ou relaxando (sistema vagal) nas fases de esgotamento. Na consciência, a Ansiedade se manifesta por dois sentimentos desagradáveis: 1 – Através da consciência das sensações fisiológicas de sudorese, palpitação, inquietação, etc. e 2 – Através da consciência de estar nervoso ou amedrontado”.
Essa descrição fria e objetiva do fenômeno da Ansiedade no nível orgânico manifesta-se de forma muito variável de indivíduo para indivíduo. Algumas pessoas sentem palpitações, suor ou opressão no peito. Outros sentem náuseas, vômito, diarréia ou vazio no estômago. Outras pessoas apresentam mal-estar respiratório. Outras pessoas sentem tensão muscular exagerada, que pode se manifestar através de espasmos, torcicolo e dores na coluna.
O que acontece é que, para certas pessoas, a ansiedade é incontrolável e permanecem as sensações de “medo, apreensão e tensão constantes” sem motivo aparente, nenhuma doença física ou situação externa que as justifiquem. Nessas pessoas, os sintomas de ansiedade surgem espontaneamente, sem nenhum motivo identificável. Mesmo quando há um motivo, os sintomas parecem exagerados diante das dimensões reais do desafio que a pessoa enfrenta.
A partir deste ponto, termina o consenso e começam as infinitas bifurcações do labirinto. A ansiedade pode assumir muitas formas diferentes: ataques de ansiedade ou pânico, fobias, transtornos obsessivos ou doenças psicossomáticas. Pode surgir como transtorno isolado, associado a outras patologias (“co-morbidade”) como a depressão ou, ainda, como sintoma de outros distúrbios psíquicos. Pode ser “Normal”, quando exerce sua função de ajudar-nos a nos adaptar às diferentes circunstâncias da vida, ou pode ser “Patológica”, quando é inadequada à duração e à intensidade da situação estressora. Pode ser entendida como um fenômeno predominantemente psico-fisiológico, quanto determinado pela própria estrutura social em que vivemos:
“Há autores que definem a era moderna como a Idade da Ansiedade, associando a este acontecimento psíquico a agitada dinâmica existencial da modernidade; sociedade industrial, competitividade, consumismo desenfreado e assim por diante.
Diz-se que a simples participação do indivíduo na sociedade contemporânea já preenche, por si só, um requisito suficiente para o surgimento da Ansiedade. Portanto, viver ansiosamente passou a ser considerado uma condição do homem moderno ou um destino comum ao qual todos estamos, de alguma maneira, atrelados… As teorias psicossociais sobre a gênese da Ansiedade são exaustivamente estudadas, não só pela medicina como também pela psicologia, pela sociologia, pela antropologia e pela filosofia” (Ballone, GJ, 2002).
Tratamento para Ansiedade: a ante-sala do Labirinto
Essa imensa variedade de tipos de Ansiedade cria um problema ligado ao diagnóstico e, conseqüentemente, ao tratamento do problema. No DSM IV, uma classificação internacional de doenças, o tema “Ansiedade” é dividido em nada menos do que 13 tópicos:
1. Agorafobia Ataque de Pânico
2. Transtorno de Pânico Sem Agorafobia
3. Transtorno de Pânico Com Agorafobia
4. Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico
5. Fobia Específica
6. Fobia Social
7. Transtorno Obsessivo-Compulsivo
8. Transtorno de Estresse Pós-Traumático
9. Transtorno de Estresse Agudo
10. Transtorno de Ansiedade Generalizada
11. Transtorno de Ansiedade Devido a Condição Médica Geral
12. Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância
13. Transtorno de Ansiedade Sem Outra Especificação.
Devido à própria complexidade do problema, torna-se extremamente complicado descrever “o melhor” tratamento para Ansiedade. Além do diagnótico diferencial, do estudo do caso individual, pairam divergências até mesmo sobre o tratamento mais adequado para casos específicos. De uma maneira geral, o objetivo de todo tratamento para ansiedade envolve quatro pontos:
“1. Diminuir os sintomas mórbidos para o pacientes readquirir a indispensável sensação de segurança;
2. Fortalecer a sensibilidade (afetividade) da pessoa para ser capaz de suportar melhor os estresses da vida;
3. Procurar resolver seus conflitos íntimos;
4. Se possível, lidar com os estressores” (Ballone GJ, 2003).
No meio de atingir esses objetivos é que reside o ponto do labirinto em que o paciente tende a se desorientar entre opiniões divergentes e respostas contraditórias, confusões conceituais, definições acadêmicas bizantinas e preconceitos diversos.
Na minha experiência como paciente não-médico, já ouvi, em consultórios e ambulatórios, desde uma recomendação para “aprender a conviver com a ansiedade como um fato da vida” até vaticínios de que “essa história de dependência de benzodiazepínicos é besteira”. Entre o preto e o branco, todas as cores do arco-íris: psicoterapia, psicanálise, tratamento fitoterápico, homeopatia, acupuntura, yôga, meditação, exercícios físicos, tratamento farmacológico com ansiolíticos benzo e não-benzodiazepínicos por tempo limitado ou “pelo tempo que for necessário”, isto é, sem prazo definido. Estou excluindo, evidentemente, rótulos como “coisa de maluco”, “frescura” ou “luxo de rico”, entre outros absurdos que, diante dos dados já apresentados, nem vale a pena comentar, apenas registrar.
Por uma questão de espaço, não vou tratar aqui do alcance e das limitações dos tratamentos não-farmacológicos, limitando-me a apresentar os fundamentos de opiniões diversas sobre o uso de benzodiazepínicos para tratamento da ansiedade e abordar a questão da dependência/abstinência possivelmente relacionada ao uso desses fármacos, sempre do ponto-de-vista subjetivo de um paciente não-médico.
O início do Labirinto: Tranqüilizantes são uma droga?
“Droga é toda e qualquer substância natural ou sintética que, introduzida no organismo, modifica suas funções… Atualmente, a Medicina define droga como sendo: qualquer substância que é capaz de modificar a função dos organismos vivos, resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento” (Portal Unimed).
Por essa definição, qualquer fármaco – medicamento, remédio – pode ser considerado uma droga. Até mesmo aquele chazinho milagroso tiro-e-queda para bronquite, receita secreta da sua avó, se realmente fizer efeito, pode ser considerado uma droga.
Para efeito de um artigo sobre ansiedade, o que nos interessa são as drogas psicoativas, psicotrópicas, isto é, com efeitos psíquicos. Vejamos o que diz a mesma fonte sobre esse tema:
“Quanto à palavra psicotrópica, é composta de duas outras, psico e trópica. Psico significa nosso psiquismo (o que sentimos, fazemos e pensamos, enfim, o que cada um é). Já a palavra trópica relaciona-se com o termo tropismo, que significa ter “atração por”. Então psicotrópico significa atração pelo psiquismo e drogas psicotrópicas são aquelas que atuam sobre o nosso cérebro, alterando de alguma maneira o nosso psiquismo”.
Incluem-se nessa definição tanto drogas ilegais, como a cocaína e a maconha, quanto drogas legais de uso sujeito a prescrição médica, como antidepressivos e tranqüilizantes, e drogas legais de consumo livre, como tabaco, álcool e café.
As drogas psicotrópicas podem ser classificadas, de acordo com seu efeito no sistema nervoso central, em três tipos: depressoras, estimulantes e perturbadoras. As drogas “depressoras” são aquelas capazes de diminuir a atividade cerebral: álcool, tranqüilizantes, soníferos, opiáceos e solventes. As drogas “estimulantes”, inversamente, são capazes de aumentar a atividade cerebral: cocaína, anfetaminas, café, tabaco (nicotina). Já as drogas “perturbadoras” são aquelas que alteram o padrão de funcionamento do cérebro, perturbando sua atividade normal e apresentam potencial para produzir alucinações: mescalina, maconha, ácido lisérgico, ecstasy, entre outras.
Note que os critérios usados nessas classificações, a princípio, não representam, sozinhas, motivo para recomendar ou condenar nenhuma droga específica. Por esse motivo, uma classificação muito utilizada é a da FDA (Food and Drug Administration – agência do governo dos EUA responsável pela avaliação e fiscalização de alimentos e drogas), que relaciona o potencial de uso nocivo de uma droga psicotrópica à sua utilidade clínica. Vale a pena reproduzi-la integralmente aqui:
Classe I: Nenhuma utilidade clínica e alto potencial de abuso e dependência: heroína, alucinógenos (LSD, mescalina); maconha.
Classe II: Baixa utilidade clínica e alto potencial de abuso e dependência: ópio ou morfina: codeína; opiáceos sintéticos; barbitúricos; anfetaminas e seus derivados; cocaína e fenciclidina.
Classe III: Alguma utilidade clínica e potencial moderado de abuso e dependência: paracetamol e codeína combinada; esteróides anabolizantes.
Classe IV: Grande utilidade clínica e potencial baixo de abuso e dependência: benzodiazepínicos; fenobarbital
Classe V: Grande utilidade clínica e potencial muito baixo de abuso e dependência: Misturas de narcóticos e atropina e misturas diluídas de codeína.
Vemos que, pela classificação da FDA, as drogas tranqüilizantes mais empregadas, da classe dos benzodiazepínicos, são consideradas como de “baixo potencial de abuso e dependência”. Vamos começar as percorrer as curvas do labirinto, uma de cada vez.
O que significa “abuso” e “dependência” de drogas?
“Abuso” é diferente de “dependência”. Abuso refere-se à má utilização de drogas psicoativas, provocando danos à saúde. Já a “dependência” refere-se a um conjunto de sintomas (síndrome) relacionados à suspensão do uso da droga. Ou seja, o usuário não consegue parar de consumir a droga sem sentir-se mal. Pelos critérios da OMS, incluem-se entre os critérios para diagnóstico de drogas psicoativas:
Intoxicação Aguda: condição transitória que aparece como conseqüência da administração de substâncias psicoativas.
Uso Nocivo: Abuso de drogas, isto é, uso que provoca danos à saúde.
Toxicomania: Estado de intoxicação periódica ou crônica, determinada pelo uso repetido de uma droga. A toxicomania caracteriza-se por desejo irresistível de usar a droga (fissura), tendência a aumentar a dose e dependência psicológica.
“Uma característica central da síndrome da dependência é o desejo de consumir drogas psicoativas, as quais podem ou não ter sido prescritas por médicos”.
O quarto do Minotauro: mas, afinal, tranqüilizantes “viciam” ou não?
Segundo Bernik, Braun e Corregiari, o receio de que os tranqüilizantes e antidepressivos provoquem dependência está relacionado a vários fatores: confusão resultante de não compreender a diferença entre remédios com ação sobre o sistema nervoso central e o que chamam de “drogas de abuso”, aquelas que, pela classificação da FDA, têm pouca ou nenhuma utilidade clínica:
“De uma maneira bem simples a capacidade de uma substância que age sobre o cérebro causar dependência, ou viciar, é ligada a esta capacidade da causar euforia ou outra sensação extremamente agradável logo após o seu uso. Tal efeito reforça o desejo de consumo e leva à dependência. Muitas pessoas acreditam que todas as medicações de uso psiquiátrico (psicotrópicas) podem ter esse resultado. A crença é corroborada por alguns profissionais não-médicos, como psicólogos, ou não-psiquiatras, como clínicos gerais, que afirmam ao paciente que ele pode estar ‘dependente’ do medicamento. Entretanto, nem todos os medicamentos que agem no cérebro têm este poder de causar dependência”.
Para esses autores, não se deve confundir um eventual mal-estar relacionado à suspensão de medicamentos como antidepressivos e tranqüilizantes, o que eles chamam de “síndrome de descontinuação”, com “síndrome de dependência”. Primeiro, porque a síndrome de descontinuação pode ser facilmente contornada com a redução gradativa da dose do medicamento. Em segundo lugar, porque a suspensão de uma droga pode resultar no retorno dos sintomas em doenças crônicas, caso que deve ser enfrentado com o retorno ao uso da medicação, não estando relacionado, entretanto, à dependência pela substância propriamente dita. A síndrome de dependência ocorre, segundo os autores, quando o comportamento do usuário passa a girar em torno de como conseguir e consumir a droga, deixando lado todos os outros aspectos da vida.
Na categoria dos tranqüilizantes, os próprios autores reconhecem que a questão da dependência deve ser debatida com mais cuidado. Para começar, é preciso entender que o termo “tranqüilizante” é uma denominação popular para toda uma classe de substâncias que atuam sobre a ansiedade. Nessa categoria, incluem-se uma variedade de ervas empregadas com esse objetivo desde a Antigüidade, o álcool, os barbitúricos, os benzodiazepínicos e, mais recentemente, ansiolíticos não benzodiazepínicos, como a buspirona.
Os barbitúricos, principalmente os de ação curta, são os que mais podem causar dependência. Na década de 1950, embora os barbitúricos fossem ainda amplamente utilizados, era reconhecida a sua capacidade de induzir tolerância e de causar dependência com o aparecimento de uma síndrome de abstinência tão intensa quanto a do álcool. Outra preocupação era o grande risco de morte por envenenamento (overdose, superdosagem).
Entretanto, os barbitúricos não são mais usados como ansiolíticos ou hipnóticos. Desde o início dos anos 1960, foram substituídos pelos benzodiazepínicos, cujos principais benefícios seriam o menor risco de dependência e menor risco de morte nos casos de envenenamento.
Para os benzodiazepínicos, aplicar-se-ia a mesma lógica: na maior parte dos casos, não se trata de uma “síndrome de abstinência” propriamente dita, mas de uma “síndrome de descontinuação”:
“Pacientes com transtornos de ansiedade também podem sofrer recorrência de sintomas ao interromper, mesmo que de forma gradual, o uso de um benzodiazepínico. Muitos retomam a utilização do medicamento. No entanto… não se trata de um remédio que causou dependência, mas sim de um transtorno que não foi curado”.
Bernik reconhece que os benzodiazepínicos, se interrompidos abruptamente, podem causar uma síndrome de abstinência, que inclui até o risco de convulsões. Segundo o autor, “isto caracteriza uma dependência fisiológica ou ‘física’ ao benzodiazepínico. Entretanto mesmo nestas situações, são raras situações de abuso e este problema não pode ser confundido com uma ’síndrome de dependência química’”.
Mas segundo a visão do Dr. Dartiu Xavier da Silveira, Coordenador do PROAD (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes) no Departamento de Psiquiatria da UNIFESP/EPM, o problema não parece tão simples assim:
“O primeiro grande desafio ao lidarmos com farmacodependências começa na própria caracterização do fenômeno. A especificidade da farmacodependência consiste na inexistência de uma especificidade estrutural do dependente de fármacos. Por mais que a nosografia psiquiátrica insista em categorizá-la como uma entidade nosológica autônoma, a clínica da farmacodependência não consegue reconhecer nada mais sistematizável do que uma conduta toxicomaníaca. Assim, em princípio, não podemos falar em ‘doença’, mas apenas em ‘conduta’. De uma forma geral, estão incluídas em uma mesma terminologia realidades individuais extremamente diversas”.
Entretanto, o fator-chave, comum a todos os casos de dependência, consistiria, segundo o autor, não no desejo de consumir drogas, mas na impossibilidade de não consumi-las: “Para o dependente, a droga é uma questão de sobrevivência”.
O próprio Dr. Bernik, em sua Tese de Livre-Docência apresentada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, realizou um estudo cuja conclusão leva direto ao quarto do Minotauro: “Em vista dos resultados deste estudo, a presumida inocuidade do uso a longo prazo de tranqüilizantes benzodiazepínicos como droga de manutenção é, ao menos, questionável. Assim, particular atenção deve ser dada quando do tratamento de moléstias psiquiátricas crônicas, como os transtornos de ansiedade, para os quais doses altas de benzodiazepínicos são atualmente recomendadas. Em face da grande demanda da população por drogas ansiolíticas, a busca de alternativas farmacológicas e não farmacológicas de tratamento deve ser valorizada”.
Outro estudo que apresenta fatos tão interessantes quanto tantalizantes sobre o uso prolongado de benzodiazepínicos é a monografia de Ronaldo Laranjeira, intitulada “Dependência de benzodiazepínicos”:
“Os indivíduos que abusam de benzodiazepínicos, geralmente o fazem para lidar com as reações, por exemplo, ao estresse devido ao luto, desemprego, etc. Com a expectativa de que tais medicações podem ajudá-los a resolver os seus próprios problemas, ou então, simplesmente buscam os seus efeitos agradáveis, tais como a euforia, a excitação e o aumento do estado motivacional para a realização de suas atividades cotidianas. Quando os pacientes adquirem tolerância a algum desses efeitos tendem a procurar um médico com o objetivo de persuadi-lo a prescrever um benzodiazepínico, ou então, compram de forma ilegal a medicação… Uma característica importante dos usuários abusivos de benzodiazepínicos é o comportamento de procurar a droga. Para adquirir a medicação controlada, o paciente emprega várias estratégias ou artifícios e quando procura um médico pressiona-o a prescrever o medicamento sem uma indicação clínica, tornando a relação médico-paciente tensa e desagradável”.
Entre as estratégias empregadas pelos usuários crônicos de benzodiazepínicos, Laranjeira cita adulteração e falsificação de receitas médicas, queixas vagas e indefinidas que induzam o médico à prescrição, supervalorização dos sintomas, insistência na eficácia exclusiva do medicamento para aliviar os sintomas, recusa de indicação de outros medicamentos, afirmação de alta tolerância ao medicamento (implicando uma suposta necessidade de dosagens maiores), ameaças veladas, bajulação e elogios antes ou após conseguir a receita médica, procurar dois ou mais médicos para obter um “estoque” de receitas e medicamentos controlados.
Ora, esse comportamento é claramente coincidente com os descritos como típicos de dependência. O paciente está, claramente, vivendo em função da obtenção de uma droga, buscando ativamente a droga, demonstrando sua “impossibilidade de não consumi-la”.
Assim, pergunto, do ponto de vista do paciente não-médico: faz diferença se o que você sofre é uma “síndrome de abstinência”, uma “síndrome de descontinuação”, uma “conduta toxicomaníaca”, um “transtorno que não foi curado” se, na prática, você não consegue viver sem a substância e se sente forçado a inventar estratégias de todo tipo para obter o medicamento?
Faz diferença para efeito do tratamento que você vai receber. Se você se deparar com um clínico que tenha preconceitos em relação ao uso de benzodiazepínicos, prepare-se para levar um sabão. Se você se deparar com um neurologista ou psiquiatra que minimize os possíveis efeitos de abuso e dependência de benzodiazepínicos, você poderá formar um estoque de medicamentos maior do que o da farmácia. No meio termo, você vai encontrar resistências e recomendações de bom-senso que procuram limitar o abuso de benzodiazepínicos, como as seguintes, de GJ Ballone:
“Esses medicamentos são utilizados nas mais variadas formas de ansiedade e, infelizmente, sua indicação não tem obedecido, desejavelmente, a determinadas regras. Não se tratam de poderosos medicamentos antineuróticos, antipsicóticos ou antiinsônia, como podem estar pensando muitos clínicos e pacientes. Eles são apenas ansiolíticos, ou seja, resolvem as crises de ansiedade aguda”.
Ou seja, benzodiazepínicos não removem a causa da ansiedade, seja qual for no caso específico. Proporcionam alívio dos sintomas, alívio esse que pode ser essencial, indispensável, em muitas situações. Mas não resolvem o problema principal, não “curam a doença”. Transformá-los em “muletas” para conseguir viver é arriscar-se a vivenciar situações, se não exatamente iguais do ponto de vista da definição acadêmica, pelo menos muito parecidas com as de um alcoólatra ou um dependente de drogas ilícitas – um “viciado”, se preferir esse termo. Existindo a possibilidade de usar outros meios para controlar a ansiedade, você deveria experimentá-los antes de exigir de seu médico uma caixinha de “coloridas pílulas de tranqüilidade”… Pois você pode estar, inadvertidamente, adquirindo uma caixinha-de-pandora repleta de ansiedade!
Bibliografia:
BALLONE GJ – Tratamento Medicamentoso da Ansiedade – in. PsiqWeb, Internet, disponível em revisto em 2003
________ – Ansiedade, in. PsiqWeb, Internet, disponível em revisto em 2002
BERNIK, Márcio Antonini. O que são tranqüilizantes? http://www.neurociencias.org.br/Display.php?Area=Textos&Texto=Tranquilizantes
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____________________. Ansioliticos. Tese de Livre-Docência, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 1997
Orientadora: Eneida Baptistete Matarazzo. http://www.adroga.casadia.org/calmantes/benzodiazepinicos.htm
BERNIK, Márcio, BRAUN, Ivan Mário, CORREGIARI, Fábio. Antidepressivos e tranqüilizantes causam dependência? http://www.neurociencias.org.br/Display.php?Area=Textos&Texto=Antidepressivos.
LARANJEIRA, Ronaldo. Dependência de benzodiazepínicos. http://br.monografias.com/trabalhos/dependencia-benzodiazepinicos-sindrome-abstinencia/dependencia-benzodiazepinicos-sindrome-abstinencia.shtml
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PSIQWEB. Ansiolíticos e tranqüilizantes. http://www.psiqweb.med.br/farmaco/ansiol.html e http://www.psiqweb.med.br/farmaco/ansiol2.html
________. Tratamentos medicamentosos. http://www.psiqweb.med.br/trats/trats.html
SILVEIRA, Dartiu Xavier. Problemas Atuais na Abordagem Terapêutica das Farmacodependências. http://www.adroga.casadia.org/news/abordagens_terapeuticas.htm
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