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O Corpo Teatral na peça “A Cobertura”: um estudo de caso | Corporalidade

O Corpo Teatral na peça “A Cobertura”: um estudo de caso

August 4th, 2009 by Alexis Kauffmann | Filed under Corporalidade e Arte.

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Géssica Hellmann
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Fone: (47) 3467-3482

- Alexis Kauffmann e Géssica Hellmann

Como coroamento de oito meses de aulas, ensaios, e superação individual, a turma de 2006 da oficina de teatro Zaira Zambelli apresentou nos últimos dias 13 e 14 a peça “A Cobertura” de Jorge Eduardo Magalhães. Desta comédia trágica que trata sobre a loucura da negação de duras realidades, abordaremos neste artigo o processo de construção das personagens por cada um dos alunos membros do elenco do ponto de vista de sua corporalidade. Trataremos também dos eventos e sensações corporais de cada um no dia da estréia antes, durante e depois de sua entrada no palco.

Ilustram este artigo fotos dos autores e algumas gentilmente cedidas por Ana Araújo.

Parte do Elenco da ?eça de teatro "A Cobertura" - foto cedida por Ana Araújo

Na data da estréia, o grupo se reuniu cedo para um ensaio completo com luz e som. A expectativa pairava no ar. Sorrisos nervosos, choradeira e brincadeiras para descontrair. Foram quatro horas de ensaios, repassando cenas e textos repetidamente.

Francisca Xavier

Faltando uma hora para a entrada do público, tivemos alguns últimos momentos para nos alimentar, hidratar, ir ao banheiro, maquiar, vestir o personagem e o dirigir elenco todo para a coxia.

Ana Araújo

Ana Araújo

O público deve imaginar: o que acontece nos bastidores de uma peça de teatro? Um pouco de tudo eu diria. Na coxia, o clima era intenso: alguns suavam frio, outros tremiam, uns com dor de barriga e outros aparentavam uma extrema tranqüilidade… Esses, chegavam até a causar estranheza nos demais.

Anna Beatriz Sarcedo

Anna Beatriz Sarcedo

Os três alarmes tocam e a luz se apaga. Chegava o grande momento. Começava a primeira cena. Na coxia, aguardávamos ansiosos a reação do público. Sim, a reação do público é o termômetro do sucesso da peça, tanto para quem estava no palco, quanto para os que aguardavam a deixa para entrar. Com tantas entradas e saídas de personagens em cena, era extremamente importante a cooperação e a união do grupo, um sempre auxiliando o outro para que tudo desse certo.

Jajá Maravilha

Jajá Maravilha

Francisca Xavier recebeu o duro encargo de dar corpo e voz a “Lizandra Madeira Ortiz”. Uma alma em conflito afetada por duas perdas que desequilibraram sua mente: a morte da filha, Suzana Madeira Ortiz, aos dois anos de idade e a perda da riqueza e do status da família. Lizandra reage a esta situação negando os fatos e criando um mundo de fantasia em que sua filha continua viva, cursando a faculdade, em idade de se casar com um “bom partido” e criando importantes negócios imaginários para seu marido Raul. Ela é a personagem central interage com todos os outros personagens e permanece no palco durante toda a duração da peça.

João Trindade

João Trindade

Pessoalmente Francisca é uma mulher muito elegante, com uma voz excelente, mas ai termina a semelhança com a personagem. Segundo a própria, entrou para o teatro para vencer a timidez e a dificuldade de falar em público. Em sua performance no palco demonstrou ter atingido este objetivo, possivelmente em grau maior do que o esperava inicialmente.

Áureo Goulart

Áureo Goulart

No desenvolvimento do personagem de Lizandra foi notável o trabalho de voz exprimindo a arrogância com os que considerava inferiores, a ternura com o fantasma de sua filha e a sedutora doçura reservada para aqueles de quem queria obter alguma vantagem. No trabalho corporal foram notáveis os olhares, a expressão do sentimento no seu rosto e os gestos com as mãos: contidos e estudados como os de uma autêntica “bem-nascida”.

Ana Araújo dá corpo e voz a “Clotilde”, empregada de Lizandra. Clotilde faz o contraponto com o personagem de Lizandra, desbocada, atrevida, insolente, “escrachada”. Ela denuncia a real situação de escassez na cobertura, mas participa da loucura vigente submetendo-se à arrogância de Lizandra pelo pragmático motivo de não ter para onde ir, improvisando soluções para as demandas absurdas de sua patroa.

Raquel Mattos

Raquel Mattos

Ana Araújo, maranhense, empresária, contribuiu com a parte luxuosa do figurino da peça (Lizandra, Fifi, Sofia) além dos “uniformes de empregada”. É uma pessoa que ilumina o ambiente onde está. Iniciou o curso com o objetivo de superação íntima, como uma espécie de “terapia alternativa”. Pelo que se pôde notar no palco superou as próprias expectativas, encarnando com brilhantismo os trejeitos, o rebolado, as “mãos nas cadeiras”, o deboche e os momentos de submissão que se esperava de seu personagem.

Géssica "Géh" Hellmann

Géssica "Géh" Hellmann

Anna Beatriz Sarcedo ficou a cargo das aparições do fantasma de “Suzana Madeira Ortiz”. Como o fantasma do pai de Hamlet, Suzana é o elemento instigador por trás das atitudes de sua mãe. Paira no ar o mistério: seria ela um autêntico fantasma ou uma alucinação compartilhada por sua mãe Lizandra e sua avó Dona Yolanda?

Anna Beatriz, chamada carinhosamente pelos colegas de Bia, estudante de Direito, é uma jovem reservada, mas muito carinhosa quando se tem um contato mais íntimo. Não deixou explícitos seus objetivos ao participar do curso, mas dotou sua personagem do ar frio e distante que se espera de um “autêntico fantasma”, algo que não se coaduna com a sua real personalidade. Suas entradas e saídas de cena são com um caminhar leve, quase inefável.

Jajá Maravilha deu vida a “Raul”, marido de Lizandra. Beberrão irresponsável tenta recuperar na jogatina os bens dilapidados da família e só consegue endividar-se cada vez mais. Sempre descomposto, cambaleante, omite-se diante da loucura de Lizandra.

Jajá Maravilha tem o objetivo de seguir a carreira de ator e leva muito a sério essa intenção, sempre dando o máximo de si durante todo o curso, os ensaios e na própria apresentação. Durante a maior parte do curso serviu como parâmetro de entusiasmo e motivação para a busca do aperfeiçoamento para os demais membros do grupo podendo ser-lhe creditada, nesse aspecto, boa parte da evolução dos alunos e a qualidade do resultado final.

O “Raul” construído por Jajá é “espaçoso”: movimentos largos de corpo, braços quase estabanados, passos longos. Com sua voz potente, expressiva e versátil faz o personagem crescer na peça, atraindo a simpatia do público e despertando risadas com suas inúmeras entonações, até mesmo para o bordão que tantas vezes repete ao longo da peça: “Tô na área, se derrubar é pênalti”. O Raul de Jajá é um surpreendente “boa-praça”.

João Trindade atuou como “Dr. Marcelino”, o síndico do prédio e amigo da família. Um homem dígno e propósitos firmes, mas com uma fraqueza: sua paixão secreta por Lizandra. Ao ser rejeitado por Lizandra em seus avanços, desencadeia a crise que conduz a história ao trágico desenlace.

Na vida real, João é funcionário da Petrobrás e encarou a dificuldade de só poder freqüentar metade das aulas do curso, pois ficava embarcado em uma das plataformas da empresa. Pretende levar seu aprendizado no teatro para o contexto da vida de quem trabalha em plataformas de petróleo.

João compõs um Dr. Marcelino empertigado, de postura e gestos firmes, atitude determinada, que só abandona pela força da paixão, ao declarar-se para Lizandra.

Áureo Goulart assume a bengala de “Dona Yolanda”, mãe de Lizandra e avó de Suzana. Yolanda parece ter transmitido geneticamente sua ausência mental a Lizandra, vivendo de um passado de glórias e denunciando, com comentários senis e agressivos, mas com alto teor de comicidade, o que o demais personagens teimam em esconder sob o véu das aparências.

Áureo é persistente e disciplinado. Demonstrou essas qualidades ao assumir uma personagem difícil quase em cima da hora, substituindo uma aluna desistente. Seu desejo de seguir carreira como ator motivou-o a construir uma Dona Yolanda responsável pela maior parte das gargalhadas do público.

A Raquel Mattos coube o desafio de desenvolver “Sofia Madeira Ortiz”, irmã de Lizandra. Sofia é o componente de racionalidade no roteiro da peça, é a única personagem 100% lúcida e conseqüente de seus atos. A ela cabe a tarefa de trazer à tona as revelações mais importantes da história.

Raquel declaradamente decidiu-se a freqüentar o curso para “superar a timidez”. Sua persistência foi recompensada com uma Sofia convincente enquanto elemento lúcido, centrado, o que expressou no seu modo firme de caminhar e na elegância dos gestos, que emulam os de Lizandra, mostrando que tiveram a mesma educação, mas sem a afetação de sua irmã desvairada.

Christiano Silva calçou os sapatos do “Entregador de Pizza”, a quem coube a função de “observador externo”, o “estranho” em seu primeiro contato com o mundo insano dos Madeira Ortiz. Ele reage às situações como faria qualquer um de nós, desde à irritação inicial por não receber o pagamento pelos seus serviços até o medo desesperado quando se dá conta de que a loucura era maior do que parecia a princípio.

A melhor palavra para descrever Christiano durante o curso é “prestativo”. Foi o fiel escudeiro da Clotilde nos bastidores, sabia de antemão onde estavam todos os objetos de cena que a Clotilde precisava para suas entradas. Durante os ensaios mostrou-se sempre atencioso, ajudando os colegas quando esqueciam alguma fala, contribuindo para a formação de um sentimento de grupo. Como Áureo, entrou em substituição a um aluno desistente e tirou partido de sua estatura – mais de um metro de noventa – para destacar o único “ser humano normal” presente no palco.

Amanda Laet é “Jussara”, a “prima pobre” trabalhadora, que se deixa enganar pelo falso glamour dos Madeira Ortiz. Para Jussara, tudo e todos na Cobertura são “chiques”, incluindo a empregada, o porteiro e o entregador de pizza.

Amanda é sorridente, animada e falante. Cursa Jornalismo e pretende seguir carreira no teatro. Sua Jussara reflete esse contagiante entusiasmo juvenil, mantendo um astral leve mesmo nos momentos mais tensos do roteiro.

Jorge Eduardo Magalhães, autor da peça e assistente de direção, estreou como ator no papel do “Oficial de Justiça”. O Oficial de Justiça surge na história como aquele que “cai na arapuca” dos Madeira Ortiz. Pensando tratar-se de pessoas normais, sucumbe ao encanto sedutor de Lizandra e abre o caminho para a tragédia. Na rápida aparição desse personagem-chave, Jorge convence na dissolução progressiva de sua sisudez pelo charme de Lizandra. Para Jorge, a experiência como ator auxiliou-o muito em seu objetivo de se estabelecer como roteirista e escritor, pois pôde “sentir na pele” o que realmente significa dar vida no palco a um personagem de sua imaginação.

Géssica Hellmann, a Géh, participou do curso com o objetivo de divertir-se, fazer amigos e ganhar desembaraço. Sente que conquistou todas essas metas com sua “Fifi Sales Amaral”, socialite falida, “amiga íntima” de Lizandra que, como a protagonista, vive de aparências e glórias passadas.

Fifi surge na história como que para sugerir que o mal que acomete Lizandra não é exclusividade dos “Madeira Ortiz”, mas uma espécie de epidemia social.

Para desenvolver sua Fifi, Géssica contou com a ajuda, conselhos e incentivo tanto de seus colegas de turma quanto de amigos atores como Sole Mazzetto e Marco Cardozo. “Liberte a perua que existe dentro de você”, foi o conselho mais ouvido. O resultado foi uma Fifi cômica, quase “desmunhecante”, num interessante contraste com o jeito contido e estudado de Lizandra.

Indicação de Leitura:

Teatro

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