O Corpo Teatral na peça “A Cobertura”: um estudo de caso
August 4th, 2009 by Alexis Kauffmann | Filed under Corporalidade e Arte.Quer mais visitas para seu site? Contrate um blog corporativo para sua empresa! Entre em contato!
Géssica Hellmann
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- Alexis Kauffmann e Géssica Hellmann
Como coroamento de oito meses de aulas, ensaios, e superação individual, a turma de 2006 da oficina de teatro Zaira Zambelli apresentou nos últimos dias 13 e 14 a peça “A Cobertura” de Jorge Eduardo Magalhães. Desta comédia trágica que trata sobre a loucura da negação de duras realidades, abordaremos neste artigo o processo de construção das personagens por cada um dos alunos membros do elenco do ponto de vista de sua corporalidade. Trataremos também dos eventos e sensações corporais de cada um no dia da estréia antes, durante e depois de sua entrada no palco.
Ilustram este artigo fotos dos autores e algumas gentilmente cedidas por Ana Araújo.
Na data da estréia, o grupo se reuniu cedo para um ensaio completo com luz e som. A expectativa pairava no ar. Sorrisos nervosos, choradeira e brincadeiras para descontrair. Foram quatro horas de ensaios, repassando cenas e textos repetidamente.
Faltando uma hora para a entrada do público, tivemos alguns últimos momentos para nos alimentar, hidratar, ir ao banheiro, maquiar, vestir o personagem e o dirigir elenco todo para a coxia.
O público deve imaginar: o que acontece nos bastidores de uma peça de teatro? Um pouco de tudo eu diria. Na coxia, o clima era intenso: alguns suavam frio, outros tremiam, uns com dor de barriga e outros aparentavam uma extrema tranqüilidade… Esses, chegavam até a causar estranheza nos demais.
Os três alarmes tocam e a luz se apaga. Chegava o grande momento. Começava a primeira cena. Na coxia, aguardávamos ansiosos a reação do público. Sim, a reação do público é o termômetro do sucesso da peça, tanto para quem estava no palco, quanto para os que aguardavam a deixa para entrar. Com tantas entradas e saídas de personagens em cena, era extremamente importante a cooperação e a união do grupo, um sempre auxiliando o outro para que tudo desse certo.
Francisca Xavier recebeu o duro encargo de dar corpo e voz a “Lizandra Madeira Ortiz”. Uma alma em conflito afetada por duas perdas que desequilibraram sua mente: a morte da filha, Suzana Madeira Ortiz, aos dois anos de idade e a perda da riqueza e do status da família. Lizandra reage a esta situação negando os fatos e criando um mundo de fantasia em que sua filha continua viva, cursando a faculdade, em idade de se casar com um “bom partido” e criando importantes negócios imaginários para seu marido Raul. Ela é a personagem central interage com todos os outros personagens e permanece no palco durante toda a duração da peça.
Pessoalmente Francisca é uma mulher muito elegante, com uma voz excelente, mas ai termina a semelhança com a personagem. Segundo a própria, entrou para o teatro para vencer a timidez e a dificuldade de falar em público. Em sua performance no palco demonstrou ter atingido este objetivo, possivelmente em grau maior do que o esperava inicialmente.
No desenvolvimento do personagem de Lizandra foi notável o trabalho de voz exprimindo a arrogância com os que considerava inferiores, a ternura com o fantasma de sua filha e a sedutora doçura reservada para aqueles de quem queria obter alguma vantagem. No trabalho corporal foram notáveis os olhares, a expressão do sentimento no seu rosto e os gestos com as mãos: contidos e estudados como os de uma autêntica “bem-nascida”.
Ana Araújo dá corpo e voz a “Clotilde”, empregada de Lizandra. Clotilde faz o contraponto com o personagem de Lizandra, desbocada, atrevida, insolente, “escrachada”. Ela denuncia a real situação de escassez na cobertura, mas participa da loucura vigente submetendo-se à arrogância de Lizandra pelo pragmático motivo de não ter para onde ir, improvisando soluções para as demandas absurdas de sua patroa.
Ana Araújo, maranhense, empresária, contribuiu com a parte luxuosa do figurino da peça (Lizandra, Fifi, Sofia) além dos “uniformes de empregada”. É uma pessoa que ilumina o ambiente onde está. Iniciou o curso com o objetivo de superação íntima, como uma espécie de “terapia alternativa”. Pelo que se pôde notar no palco superou as próprias expectativas, encarnando com brilhantismo os trejeitos, o rebolado, as “mãos nas cadeiras”, o deboche e os momentos de submissão que se esperava de seu personagem.

Géssica "Géh" Hellmann
Anna Beatriz Sarcedo ficou a cargo das aparições do fantasma de “Suzana Madeira Ortiz”. Como o fantasma do pai de Hamlet, Suzana é o elemento instigador por trás das atitudes de sua mãe. Paira no ar o mistério: seria ela um autêntico fantasma ou uma alucinação compartilhada por sua mãe Lizandra e sua avó Dona Yolanda?
Anna Beatriz, chamada carinhosamente pelos colegas de Bia, estudante de Direito, é uma jovem reservada, mas muito carinhosa quando se tem um contato mais íntimo. Não deixou explícitos seus objetivos ao participar do curso, mas dotou sua personagem do ar frio e distante que se espera de um “autêntico fantasma”, algo que não se coaduna com a sua real personalidade. Suas entradas e saídas de cena são com um caminhar leve, quase inefável.

Jajá Maravilha deu vida a “Raul”, marido de Lizandra. Beberrão irresponsável tenta recuperar na jogatina os bens dilapidados da família e só consegue endividar-se cada vez mais. Sempre descomposto, cambaleante, omite-se diante da loucura de Lizandra.

Jajá Maravilha tem o objetivo de seguir a carreira de ator e leva muito a sério essa intenção, sempre dando o máximo de si durante todo o curso, os ensaios e na própria apresentação. Durante a maior parte do curso serviu como parâmetro de entusiasmo e motivação para a busca do aperfeiçoamento para os demais membros do grupo podendo ser-lhe creditada, nesse aspecto, boa parte da evolução dos alunos e a qualidade do resultado final.

O “Raul” construído por Jajá é “espaçoso”: movimentos largos de corpo, braços quase estabanados, passos longos. Com sua voz potente, expressiva e versátil faz o personagem crescer na peça, atraindo a simpatia do público e despertando risadas com suas inúmeras entonações, até mesmo para o bordão que tantas vezes repete ao longo da peça: “Tô na área, se derrubar é pênalti”. O Raul de Jajá é um surpreendente “boa-praça”.
João Trindade atuou como “Dr. Marcelino”, o síndico do prédio e amigo da família. Um homem dígno e propósitos firmes, mas com uma fraqueza: sua paixão secreta por Lizandra. Ao ser rejeitado por Lizandra em seus avanços, desencadeia a crise que conduz a história ao trágico desenlace.

Na vida real, João é funcionário da Petrobrás e encarou a dificuldade de só poder freqüentar metade das aulas do curso, pois ficava embarcado em uma das plataformas da empresa. Pretende levar seu aprendizado no teatro para o contexto da vida de quem trabalha em plataformas de petróleo.
João compõs um Dr. Marcelino empertigado, de postura e gestos firmes, atitude determinada, que só abandona pela força da paixão, ao declarar-se para Lizandra.

Áureo Goulart assume a bengala de “Dona Yolanda”, mãe de Lizandra e avó de Suzana. Yolanda parece ter transmitido geneticamente sua ausência mental a Lizandra, vivendo de um passado de glórias e denunciando, com comentários senis e agressivos, mas com alto teor de comicidade, o que o demais personagens teimam em esconder sob o véu das aparências.

Áureo é persistente e disciplinado. Demonstrou essas qualidades ao assumir uma personagem difícil quase em cima da hora, substituindo uma aluna desistente. Seu desejo de seguir carreira como ator motivou-o a construir uma Dona Yolanda responsável pela maior parte das gargalhadas do público.
A Raquel Mattos coube o desafio de desenvolver “Sofia Madeira Ortiz”, irmã de Lizandra. Sofia é o componente de racionalidade no roteiro da peça, é a única personagem 100% lúcida e conseqüente de seus atos. A ela cabe a tarefa de trazer à tona as revelações mais importantes da história.

Raquel declaradamente decidiu-se a freqüentar o curso para “superar a timidez”. Sua persistência foi recompensada com uma Sofia convincente enquanto elemento lúcido, centrado, o que expressou no seu modo firme de caminhar e na elegância dos gestos, que emulam os de Lizandra, mostrando que tiveram a mesma educação, mas sem a afetação de sua irmã desvairada.

Christiano Silva calçou os sapatos do “Entregador de Pizza”, a quem coube a função de “observador externo”, o “estranho” em seu primeiro contato com o mundo insano dos Madeira Ortiz. Ele reage às situações como faria qualquer um de nós, desde à irritação inicial por não receber o pagamento pelos seus serviços até o medo desesperado quando se dá conta de que a loucura era maior do que parecia a princípio.

A melhor palavra para descrever Christiano durante o curso é “prestativo”. Foi o fiel escudeiro da Clotilde nos bastidores, sabia de antemão onde estavam todos os objetos de cena que a Clotilde precisava para suas entradas. Durante os ensaios mostrou-se sempre atencioso, ajudando os colegas quando esqueciam alguma fala, contribuindo para a formação de um sentimento de grupo. Como Áureo, entrou em substituição a um aluno desistente e tirou partido de sua estatura – mais de um metro de noventa – para destacar o único “ser humano normal” presente no palco.

Amanda Laet é “Jussara”, a “prima pobre” trabalhadora, que se deixa enganar pelo falso glamour dos Madeira Ortiz. Para Jussara, tudo e todos na Cobertura são “chiques”, incluindo a empregada, o porteiro e o entregador de pizza.
Amanda é sorridente, animada e falante. Cursa Jornalismo e pretende seguir carreira no teatro. Sua Jussara reflete esse contagiante entusiasmo juvenil, mantendo um astral leve mesmo nos momentos mais tensos do roteiro.

Jorge Eduardo Magalhães, autor da peça e assistente de direção, estreou como ator no papel do “Oficial de Justiça”. O Oficial de Justiça surge na história como aquele que “cai na arapuca” dos Madeira Ortiz. Pensando tratar-se de pessoas normais, sucumbe ao encanto sedutor de Lizandra e abre o caminho para a tragédia. Na rápida aparição desse personagem-chave, Jorge convence na dissolução progressiva de sua sisudez pelo charme de Lizandra. Para Jorge, a experiência como ator auxiliou-o muito em seu objetivo de se estabelecer como roteirista e escritor, pois pôde “sentir na pele” o que realmente significa dar vida no palco a um personagem de sua imaginação.

Géssica Hellmann, a Géh, participou do curso com o objetivo de divertir-se, fazer amigos e ganhar desembaraço. Sente que conquistou todas essas metas com sua “Fifi Sales Amaral”, socialite falida, “amiga íntima” de Lizandra que, como a protagonista, vive de aparências e glórias passadas.

Fifi surge na história como que para sugerir que o mal que acomete Lizandra não é exclusividade dos “Madeira Ortiz”, mas uma espécie de epidemia social.

Para desenvolver sua Fifi, Géssica contou com a ajuda, conselhos e incentivo tanto de seus colegas de turma quanto de amigos atores como Sole Mazzetto e Marco Cardozo. “Liberte a perua que existe dentro de você”, foi o conselho mais ouvido. O resultado foi uma Fifi cômica, quase “desmunhecante”, num interessante contraste com o jeito contido e estudado de Lizandra.

Indicação de Leitura:

Teatro
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